FestLabs debate neurociência, educação e governança para fortalecer inovação no Judiciário
Neurociência aplicada à inovação, educação como instrumento de prevenção e justiça social e construção de uma governança capaz de transformar boas ideias em políticas institucionais permanentes. Esses foram alguns dos temas que marcaram a manhã desta sexta-feira (21), no segundo dia do 6º FestLabs – Encontro Nacional dos Laboratórios de Inovação do Poder Judiciário, realizado em Cuiabá.O evento reuniu magistrados, servidores, pesquisadores e profissionais de diferentes áreas para discutir o futuro da Justiça, compartilhar projetos inovadores e aprofundar o debate sobre como tecnologia, dados, inteligência artificial e novas metodologias podem contribuir para soluções de maior impacto para o cidadão.
A sexta edição do FestLabs é resultado de uma construção interinstitucional coordenada pelo Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT), em parceria com o Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso (TRE-MT), Tribunal Regional do Trabalho da 23ª Região (TRT23) e Seção Judiciária Federal de Mato Grosso, com apoio técnico e institucional do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
Ao longo da manhã, as palestras ampliaram o conceito de inovação para além da tecnologia. Com diferentes abordagens, os convidados destacaram a necessidade de compreender o comportamento humano, investir na prevenção de problemas sociais e criar estruturas de governança que permitam às instituições inovar de maneira contínua, responsável e alinhada às necessidades da sociedade.
Neurociência aplicada à inovação e criatividadeComo compreender o funcionamento do cérebro pode ajudar a desenvolver projetos de inovação mais eficientes? Essa foi a provocação apresentada pelo neurocientista Leandro Mattos, na palestra “Neurociência Aplicada à Inovação e Criatividade”. O palestrante defendeu que metodologias já consolidadas, como Design Thinking e Lean Startup, podem ganhar uma nova dimensão quando associadas ao conhecimento sobre cognição, emoções, comportamento e tomada de decisão.
Segundo Mattos, inovar não significa apenas desenvolver uma boa ideia ou utilizar uma nova tecnologia. É necessário compreender como pensam e decidem tanto as pessoas que serão beneficiadas pela solução, quanto aquelas responsáveis por aprovar, apoiar ou implementar o projeto.
Ao apresentar conceitos da neurociência comportamental, ele abordou mecanismos automáticos de tomada de decisão, vieses cognitivos, percepção de valor, engajamento, confiança e formação de coalizões. “A proposta é incorporar esses conhecimentos às ferramentas tradicionais de inovação para aumentar a capacidade de uma solução gerar adesão e mudança de comportamento”, explicou.Mattos também chamou a atenção para um desafio recorrente na implantação de projetos. “Muitas vezes, o principal obstáculo não é a resistência à mudança, mas a falta de prioridade. Nesse contexto, é importante criar senso de urgência, reduzir barreiras, demonstrar ganhos de forma clara e construir condições para que as pessoas compreendam o valor da transformação proposta”, afirmou.
A aplicação desses conhecimentos, ressaltou, deve estar necessariamente associada à ética. Para ele, técnicas capazes de influenciar decisões precisam ser utilizadas para facilitar escolhas e gerar benefícios, preservando a confiança das pessoas envolvidas.
Educação que evita que vulnerabilidades cheguem aos autosA relação entre educação, prevenção e justiça foi o centro da palestra “O Impacto Invisível da Educação na Justiça Social”, apresentada por João Paulo Malara, fundador e CEO da New School, e Fernando dos Santos, professor de escola pública, ativista social e líder comunitário.
A partir de experiências pessoais e projetos desenvolvidos com instituições públicas de ensino, os palestrantes mostraram como ações educacionais podem atuar antes que situações de violência, vulnerabilidade e exclusão social se transformem em processos judiciais. “Nosso objetivo é olhar para aquilo que não aparece nas estatísticas do Judiciário: as trajetórias que podem ser transformadas antes de chegarem aos autos”, afirmou João Paulo.
Fernando dos Santos destacou o trabalho desenvolvido por meio de uma plataforma que leva conteúdos educacionais a jovens de escolas públicas e de periferias, abordando temas como violência doméstica e uso excessivo de telas. “A tecnologia não deve ser vista como inimiga, mas utilizada como ferramenta de conscientização, acompanhada da orientação de pais e responsáveis”, disse.
João Paulo Malara ressaltou a importância da comunicação para que conteúdos complexos realmente estabeleçam conexão com os jovens. Segundo ele, iniciativas desenvolvidas em diferentes estados demonstram que o Judiciário pode ampliar sua atuação preventiva ao se aproximar da escola e utilizar linguagens capazes de dialogar com crianças e adolescentes.Entre as experiências apresentadas esteve o projeto “Boyzinho de Respeito”, desenvolvido em Pernambuco para trabalhar saúde emocional e desconstrução de masculinidades tóxicas entre jovens. A iniciativa utiliza conteúdos digitais e atividades presenciais e passou a formar multiplicadores, ampliando a capacidade de professores e facilitadores conduzirem discussões sobre respeito e prevenção à violência.
Outro exemplo apresentado foi o programa “Por Trás das Telas”, realizado em Mato Grosso e voltado à proteção digital de crianças e adolescentes. A iniciativa aborda uso excessivo de telas, cyberbullying, exposição de imagens, golpes, segurança na internet, inteligência artificial, ética e senso crítico.
Para os palestrantes, essas experiências evidenciam um impacto que dificilmente aparece nos indicadores tradicionais: jovens que, por meio da informação, do acolhimento e da educação socioemocional, podem mudar suas trajetórias e não chegar futuramente ao sistema de Justiça.
Governança transforma inovação em capacidade institucionalEncerrando as atividades da manhã, Tamilly Virissimo, servidora pública do Tribunal Regional do Trabalho da 12ª Região (TRT12), apresentou um dos desafios enfrentados pelos laboratórios de inovação depois de sua consolidação dentro das instituições: deixar de atuar apenas em projetos pontuais para contribuir com uma capacidade permanente de inovação.
Na palestra “Governança da Inovação: da iniciativa isolada à capacidade institucional”, ela defendeu que inovar de forma sustentável exige definição clara de responsabilidades, autonomia, critérios para priorização, integração com a estratégia institucional e participação efetiva da alta administração.
A palestrante apresentou como exemplo a estrutura adotada em seu tribunal, que conta com instâncias distintas para governança, facilitação metodológica e gestão administrativa dos projetos. “Contudo, não existe um modelo único e cada tribunal deve construir uma estrutura compatível com sua realidade e cultura organizacional”, lembrou.
Entre as questões centrais levantadas estão: quem decide quais projetos avançam, quais devem ser pausados, quais podem ser ampliados e o que deixa de ser prioridade? Para Tamilly, essas escolhas não podem permanecer concentradas nos laboratórios. Precisam fazer parte da estratégia da instituição e contar com patrocínio da alta administração.
A governança também deve integrar temas como inteligência artificial, proteção de dados, ética, integridade, acessibilidade e gestão de riscos. A desconexão entre laboratórios, comitês de IA, áreas estratégicas e demais setores, alertou, pode produzir iniciativas fragmentadas e comprometer a capacidade institucional de inovar.Outro aspecto destacado foi a transparência na seleção dos projetos. Critérios objetivos para priorização ajudam a reduzir a percepção de que determinadas iniciativas avançam apenas em razão de maior influência institucional de seus proponentes e fortalecem a confiança no processo de inovação.
Ao final, Tamilly propôs uma reflexão sobre o futuro dos laboratórios: mais do que espaços responsáveis por executar projetos, eles devem atuar como indutores de uma cultura e de uma capacidade institucional de inovação, conectando pessoas, setores, estratégia e alta administração.
Ana Assumpção / Foto: Josi Dias e Rodrigo Moura
Coordenadoria de Comunicação do TJMT
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