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 20/08/2026   14:16   

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Justiça híbrida: FestLabs discute integração entre pessoas, dados e inteligência artificial

Visão posterior de auditório lotado durante palestra. Na frente, à direita, um homem de cabelos brancos e paletó discursa em um púlpito. O telão exibe o texto: "O que precisamos entender e conciliar no cenário híbrido humano, dados e IA?".A convivência entre pessoas, dados e inteligência artificial dentro das instituições públicas, em especial as do sistema judiciário, exige mais do que a adoção de novas ferramentas tecnológicas. Ela demanda mudança de cultura, governança, capacitação e uma nova forma de pensar os serviços oferecidos ao cidadão. A reflexão marcou a palestra de abertura da 6ª edição do FestLabs, conduzida pelo especialista e consultor de inovação Álvaro Gregório na manhã desta quinta-feira (20), no Cenarium Rural.

Com o tema “Justiça Híbrida”, que também orienta esta edição do encontro nacional dos laboratórios de inovação do Poder Judiciário, Gregório apresentou desafios e oportunidades da inteligência artificial para a Justiça e defendeu que os laboratórios assumam papel estratégico na experimentação, avaliação e disseminação responsável dessas tecnologias.

“Quando você tem a IA apenas como uma nova tecnologia, você perde muito. Quando temos inteligência artificial e humanos conseguindo se entender, aprender e colaborar dentro do mesmo ambiente, aí temos uma transformação nas organizações”, afirmou.

O especialista destacou que o avanço da inteligência artificial modifica não apenas a tecnologia empregada pelo Judiciário, mas a própria organização do trabalho. Segundo ele, depois de décadas em que as instituições se estruturaram para atender o cidadão por meio de balcões físicos e, posteriormente, de portais digitais, um novo cenário começa a surgir, caracterizado por sistemas cognitivos distribuídos, agentes de inteligência artificial e serviços cada vez mais personalizados.

“Precisamos preparar as instituições para conviver com a inteligência artificial. Se a IA mudar apenas a tecnologia, teremos eficiência. Se mudar a forma como aprendemos, colaboramos e decidimos, teremos transformação”, resumiu.

Laboratórios como espaços de experimentação

Plano médio de homem de cabelos brancos, óculos e paletó cinza. Ele segura um microfone na mão esquerda e gesticula com a mão direita enquanto discursa no palco. Ao lado, há um púlpito de madeira e, ao fundo, um telão luminoso.Ao abordar a relação entre os laboratórios de inovação e a inteligência artificial, Álvaro Gregório afirmou que esses ambientes são locais privilegiados para experimentar tecnologias de maneira controlada, multidisciplinar e orientada às necessidades das pessoas.

Para ele, a inovação não deve ser compreendida apenas como um projeto ou uma estrutura física. “A inovação é uma capacidade institucional. O laboratório é o espaço onde essa capacidade pode ser desenvolvida, testada e ampliada”, destacou.

Entre as capacidades estratégicas que os laboratórios deverão desenvolver nos próximos anos, o palestrante citou prontidão para inteligência artificial, orquestração entre humanos e máquinas, design de serviços para pessoas e agentes digitais, governança ética e algorítmica, inovação em rede, transformação cultural, gestão por contexto e uma arquitetura institucional de inovação.

Gregório também defendeu maior aproximação entre laboratórios, áreas de tecnologia, magistrados, servidores, universidades e demais integrantes do ecossistema de inovação. Segundo ele, projetos de IA exigem equipes multidisciplinares e ambientes que permitam testar hipóteses antes da adoção em larga escala.

“O laboratório é o lugar natural para a experimentação responsável de IA, porque reúne tecnologia, direito, usuários e capacidade de errar de forma inteligente sob a mesma cobertura institucional”, ressaltou.

Benefícios e riscos

Homem de cabelos brancos, óculos e paletó cinza fala ao microfone em um palco. Ao fundo, um telão escuro apresenta o título "Os 6 benefícios reais da IA no Judiciário" acompanhado de quadros explicativos com tópicos como "Celeridade" e "Padronização".A palestra também apresentou possibilidades concretas de utilização da inteligência artificial no Judiciário. Entre os benefícios apontados estão maior celeridade na tramitação processual, padronização e coerência em atividades repetitivas, análise de grandes volumes de informações, ampliação do acesso à Justiça, identificação de anomalias e liberação de servidores para atividades que exigem maior capacidade humana de julgamento e análise.

O especialista chamou atenção, no entanto, para a necessidade de equilibrar produtividade e humanização. Segundo ele, a aceleração proporcionada pela tecnologia não pode resultar em afastamento das particularidades de cada pessoa ou processo.

“O papel humano estará cada vez mais ligado ao julgamento, ao contexto, à ética e à governança. São dimensões que não podem simplesmente ser transferidas para a máquina”, afirmou.

Entre os riscos críticos relacionados ao uso da IA no Judiciário, Gregório destacou alucinações ou informações incorretas produzidas pelos modelos, vieses algorítmicos, opacidade das decisões automatizadas, vazamento de dados, dependência tecnológica e o chamado ‘Shadow AI’, quando servidores passam a utilizar ferramentas sem conhecimento, controle ou governança da instituição.

Para o palestrante, a resposta não deve ser simplesmente proibir a utilização dessas tecnologias, mas criar regras, ambientes seguros e capacitação para que sejam utilizadas de forma responsável.

Governança e soberania dos dados

Outro ponto enfatizado por Álvaro Gregório foi a dependência de grandes plataformas tecnológicas e os reflexos dessa relação para o setor público. Gregório alertou que a discussão sobre soberania digital não se limita ao local onde os dados estão armazenados, mas envolve saber como as informações são utilizadas, processadas e incorporadas aos modelos de inteligência artificial.

Segundo ele, a expansão dessas tecnologias amplia a importância da governança de dados, da proteção de informações pessoais e processuais e da adoção de soluções que garantam maior controle institucional.

Gregório também destacou o pioneirismo do Poder Judiciário brasileiro na regulamentação do uso da inteligência artificial. “O Judiciário tem uma grande vantagem. As primeiras regulamentações sobre como utilizar inteligência artificial vieram do próprio Conselho Nacional de Justiça. Isso demonstra que o Judiciário não apenas utiliza a tecnologia, mas está atento às mudanças e à necessidade de estabelecer parâmetros”, avaliou.

O humano como diferencial

Durante a palestra, o especialista provocou uma reflexão sobre quais indicadores deverão ser considerados em uma Justiça cada vez mais apoiada por máquinas. Métricas tradicionais, como tempo médio, produtividade e quantidade de processos, continuarão relevantes, mas parte delas poderá ser fortemente impactada pela automação.

Nesse novo cenário, Gregório defendeu que as organizações também passem a medir aspectos diretamente relacionados à experiência humana, como confiança na Justiça, experiência do usuário, prevenção de conflitos, aprendizado organizacional, capacidade de adaptação e impacto social.

“Aquilo que precisamos medir é o que somente o humano pode melhorar”, afirmou.

Outro alerta apresentado foi relacionado ao chamado “colapso do modelo”, fenômeno associado ao treinamento sucessivo de sistemas de inteligência artificial com conteúdos produzidos por outras inteligências artificiais. Segundo Gregório, a repetição pode reduzir a diversidade dos dados e eliminar justamente as exceções que impulsionam criatividade e inovação.

“A inovação nasce das exceções; o colapso nasce da repetição. Sem a diversidade da experiência humana, a inteligência artificial converge para a mediocridade”, destacou.

Desafio para os laboratórios

Ao final, Álvaro Gregório propôs quatro perguntas para orientar a atuação dos laboratórios de inovação: quem precisamos ser para inovar; o que está vindo em nossa direção; como transformar inovação em capacidade institucional; e como ampliar a troca de experiências sobre gestão e inteligência artificial.

Para o especialista, o desafio dos próximos anos será fazer com que a inteligência artificial deixe de ser tratada apenas como ferramenta tecnológica e passe a integrar uma estratégia institucional centrada nas pessoas.

“Precisamos usar a inteligência artificial para transformar, e não apenas para automatizar aquilo que já fazemos”, concluiu.

FestLabs

O FestLabs é o encontro nacional dos laboratórios de inovação do Poder Judiciário. A sexta edição reúne cerca de 600 magistrados, servidores, pesquisadores e parceiros de todo o Brasil para compartilhar experiências, discutir tendências e apresentar projetos capazes de transformar a prestação jurisdicional.

A programação segue até sexta-feira (21) aborda temas relacionados à inovação, inteligência artificial, dados, governança, transformação institucional e desenvolvimento de soluções voltadas à melhoria dos serviços públicos e da experiência do cidadão.


Ana Assumpção / Foto: Josi Dias e Rodrigo Moura

Coordenadoria de Comunicação do TJMT

imprensa@tjmt.jus.br

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