Lei Maria da Penha chega aos 20 anos fortalecendo a proteção às mulheres
Duas décadas após transformar o enfrentamento
à violência doméstica no Brasil, a Lei nº 11.340 - Maria da Penha segue atual. Mas os
avanços conquistados desde sua criação convivem com um desafio permanente:
romper o ciclo da violência e garantir que a proteção chegue a todas as
mulheres, especialmente às que vivem longe dos grandes centros.
À frente da Coordenadoria Estadual da Mulher
em Situação de Violência Doméstica e Familiar (Cemulher-MT) do Tribunal de
Justiça de Mato Grosso (TJMT), a desembargadora Vandymara Galvão Ramos Paiva
Zanolo afirma que uma das prioridades da gestão é fortalecer a atuação
integrada da rede de proteção em todo o estado.
Para a magistrada, a data representa um
momento de reflexão sobre as conquistas alcançadas e, ao mesmo tempo sobre os
desafios que ainda precisam ser superados. "Assumo a coordenação da
Cemulher com profundo senso de responsabilidade e compromisso com a proteção
das mulheres mato-grossenses. Trata-se de um momento especialmente simbólico,
pois, em 2026, a Lei Maria da Penha completa 20 anos como um dos mais
importantes marcos de proteção dos direitos das mulheres no Brasil".
Entre as prioridades da nova gestão está a
continuação da ampliação e o fortalecimento das Redes de Enfrentamento à
Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, reunindo Judiciário, Ministério
Público, Defensoria Pública, forças de segurança, municípios e serviços das
áreas de assistência social, saúde e educação. "A violência doméstica é um
fenômeno complexo, que exige atuação articulada, permanente e comprometida.
Somente uma rede estruturada pode oferecer às mulheres atendimento célere,
humanizado e integral, especialmente nos municípios mais distantes dos grandes
centros", afirma Vandymara Zanolo.
A desembargadora também destaca como
prioridade o fortalecimento dos Grupos Reflexivos para Homens, voltados à
responsabilização, reeducação e prevenção da reincidência, além da continuidade
das capacitações, campanhas de conscientização e ações educativas.
Duas décadas de avanços
Na avaliação da coordenadora da Cemulher-MT, a
Lei Maria da Penha promoveu uma mudança histórica na forma como a violência
doméstica passou a ser tratada pelo Estado e pela sociedade. "Antes de sua
promulgação, a violência ocorrida dentro dos lares era frequentemente tratada
como uma questão privada. A Lei Maria da Penha contribuiu decisivamente para
mudar essa compreensão, reconhecendo a violência doméstica como grave violação
dos direitos humanos e trazendo o tema para o centro do debate público e
institucional".
Ela destaca que, ao longo desses 20 anos, a
legislação consolidou medidas protetivas de urgência, fortaleceu a
especialização dos órgãos de atendimento, ampliou o reconhecimento das
diferentes formas de violência e impulsionou políticas públicas voltadas à
prevenção, à proteção das vítimas e à responsabilização dos agressores.
Apesar dos avanços, a desembargadora ressalta
que ainda é preciso ampliar o acesso aos serviços especializados, fortalecer
continuamente as Redes de Enfrentamento, investir na qualificação dos
profissionais e ampliar as ações preventivas. "Mais do que assegurar uma
legislação eficiente, precisamos consolidar uma cultura de respeito, igualdade
e não violência, na qual nenhuma mulher tenha sua liberdade ou dignidade
violada".
Proteção começa com acolhimento
A desembargadora Vandymara Zanolo reforça que
nenhuma instituição consegue enfrentar sozinha a violência doméstica e que a
atuação integrada permite oferecer um atendimento mais eficiente às vítimas.
"Quando o Poder Judiciário, o Ministério Público, a Defensoria Pública, as
Polícias Civil e Militar, os municípios, os serviços de assistência social,
saúde e educação e as organizações da sociedade civil atuam de forma
coordenada, a mulher deixa de percorrer um caminho fragmentado e passa a
receber um atendimento mais célere, humanizado e eficiente".
Segundo ela, essa atuação conjunta reduz a
revitimização, fortalece a efetividade das medidas protetivas e amplia o acesso
aos serviços de acolhimento, assistência jurídica, saúde e proteção social,
além de contribuir para que as mulheres reconstruam sua autonomia e rompam o
ciclo da violência.
Ao deixar uma mensagem às mulheres que ainda
convivem com situações de violência, a magistrada reforça que buscar ajuda é um
passo importante e que elas não precisam enfrentar esse processo sozinhas.
"Gostaria de dizer a cada mulher que convive com a violência doméstica que
ela não está sozinha e que a violência sofrida nunca é culpa dela".
A magistrada acrescenta que o medo, as
ameaças, a dependência econômica ou emocional e a preocupação com os filhos
tornam a decisão de denunciar muito difícil, mas destaca que existem
instituições preparadas para acolher e proteger as vítimas. "Nenhuma
mulher merece viver com medo. A violência não deve ser naturalizada, silenciada
ou enfrentada sozinha. Há pessoas e instituições comprometidas em caminhar ao
lado de cada mulher na construção de uma vida livre de violência",
finalizou.
Corrida une esporte e conscientização
As ações em comemoração aos 20 anos da Lei
Maria da Penha também têm mobilizado a sociedade por meio do esporte. Em Sinop,
a 3ª Corrida e Caminhada Maria da Penha, realizada dia 1º de agosto, reuniu
mais de 900 participantes em uma grande mobilização pelo enfrentamento à
violência doméstica e familiar contra a mulher.
Promovido pela Rede de Proteção à Mulher
Vítima de Violência de Sinop, com apoio de instituições parceiras, o evento
reforçou a importância da atuação integrada das Redes de Enfrentamento. Além de
conscientizar a população, a corrida arrecadou recursos destinados às ações da
rede local de proteção às mulheres em situação de violência.
A iniciativa marcou a abertura da programação do Agosto Lilás no município e simbolizou o compromisso coletivo de instituições públicas, iniciativa privada e comunidade na defesa dos direitos das mulheres, mostrando que o enfrentamento à violência depende do engajamento de toda a sociedade.
Roberta Penha / Foto: Josi Dias e Rodrigo Moura
Coordenadoria de Comunicação do TJMT
imprensa@tjmt.jus.br
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