Lei Maria da Penha: magistradas do TJMT destacam avanços, desafios e a luta para salvar vidas
A
cada mulher que rompe o silêncio, uma história de coragem se sobrepõe ao medo.
Há 20 anos, a Lei Maria da Penha passou a oferecer instrumentos concretos para
proteger vítimas de violência doméstica e familiar, transformando a forma como
o Brasil enfrenta um problema que, por muito tempo, permaneceu invisível dentro
dos lares. Apesar dos avanços conquistados desde então, magistradas do Tribunal
de Justiça de Mato Grosso (TJMT) alertam que a mudança cultural ainda é o maior
desafio para impedir que novas mulheres tenham suas vidas interrompidas pela
violência.
A
juíza Ana Graziela Vaz de Campos Alves Corrêa, que atuou por muitos anos na 1ª
Vara Especializada de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher e
atualmente responde pela 2ª Vara Especializada de Família e Sucessões, destaca
que a legislação representou uma mudança histórica ao reconhecer diferentes
formas de violência contra a mulher e criar mecanismos de proteção mais
efetivos.
Segundo
ela, além de ampliar o conceito de violência doméstica para incluir as
agressões psicológica, sexual, patrimonial e moral, a Lei Maria da Penha
instituiu medidas protetivas com análise prioritária, fortaleceu a punição aos
agressores e criou varas especializadas com equipes multidisciplinares e
atuação integrada com a rede de proteção.
A
juíza Tatyana Lopes de Araújo Borges, titular da 2ª Vara Especializada de
Violência Doméstica e Familiar contra a
Mulher de Cuiabá, também aponta a
visibilidade dada ao problema como um dos maiores legados da legislação.
"Um
dos principais avanços foi, principalmente, a visibilidade da violência
doméstica contra a mulher. Hoje, nós conseguimos entender que não se trata de
um problema no âmbito privado, como se entendia no passado, mas ela se tornou o
centro do debate público. Hoje, nós discutimos não apenas a violência física,
mas também a violência psicológica, moral, patrimonial, sexual e, mais
recentemente, a violência vicária", afirma.
Para
a magistrada, dar visibilidade ao problema também permite produzir estatísticas
e direcionar políticas públicas voltadas à prevenção e ao acolhimento das
vítimas.
Desafio
permanente
Mesmo
após duas décadas da Lei Maria da Penha, as duas magistradas concordam que a
violência doméstica não será combatida apenas com a aplicação da legislação.
Para
a juíza Ana Graziela, trata-se de um problema social e estrutural. "A
violência doméstica e familiar contra a mulher, para além de um problema
judicial, é um problema social e estrutural. Esse é o maior desafio, a mudança
social e estrutural do que gera e fomenta essa violência, não bastando a
aplicação correta da lei para findar a violência e proteger as vítimas. Por
isso se mostra tão importante a articulação em rede", ressalta.
A
magistrada observa ainda que nos últimos anos houve aumento das denúncias
envolvendo violência psicológica e patrimonial, impulsionado pelo maior
conhecimento sobre os direitos das mulheres. Ao mesmo tempo, o crescimento dos
casos de feminicídio em Mato Grosso preocupa o Judiciário, que busca
identificar fatores de risco para fortalecer as ações preventivas.
Na
mesma linha, a juíza Tatyana lembra que o aumento das penas para feminicídio
representa uma resposta importante do Estado, mas não é suficiente para mudar
uma realidade construída ao longo de gerações. "Infelizmente, como a gente
vê que isso não é um problema só legislativo, é um problema cultural, mesmo com
a implantação da lei, no ano passado nós tivemos um aumento de
feminicídio", afirma.
Rede
que protege
As
magistradas destacam que nenhuma instituição consegue enfrentar a violência
doméstica sozinha.
Ana
Graziela defende investimentos permanentes em políticas públicas,
fortalecimento das Delegacias Especializadas, ampliação da Patrulha Maria da
Penha, atendimento psicológico e ações que promovam a autonomia financeira das
mulheres. Para ela, a atuação integrada da rede é indispensável para garantir
proteção efetiva às vítimas.
Tatyana
reforça que o trabalho em rede também precisa olhar para o futuro, apostando na
educação como instrumento de transformação social.
Ela
cita iniciativas desenvolvidas pelo Poder Judiciário, como o projeto Lei Maria
da Penha Vai às Escolas e o A Escola Ensina, a Mulher Agradece, que levam o
debate sobre respeito, igualdade e prevenção da violência às salas de aula.
"Por meio da educação, a gente pode transformar essa cultura de violência
para uma cultura de respeito", afirma.
Romper
o silêncio salva vidas
Outro
ponto destacado pelas magistradas é a importância da denúncia e das medidas
protetivas de urgência.
Segundo
Tatyana, Mato Grosso concede medidas protetivas em poucas horas, um dos
melhores desempenhos do país. Ela ressalta que esses mecanismos têm papel
fundamental na preservação da vida das mulheres. "As medidas protetivas
realmente salvam vidas. No ano passado foram quase 20 mil medidas protetivas
deferidas dentro do nosso estado. Milhares de mulheres estão protegidas por
medidas protetivas e é de forma célere", destaca.
Às
mulheres que ainda enfrentam situações de violência, Ana Graziela deixa uma
mensagem de acolhimento. "Procurem ajuda, seja de familiares, amigos ou
ajuda especializada, se informem sobre os seus direitos, sobre as medidas de
proteção que podem lhes ser deferidas e sobre as ações judiciais e sociais que
podem ser adotadas", orienta, lembrando que o Tribunal de Justiça de Mato
Grosso disponibiliza atendimento psicológico, social e diversas ações de apoio
por meio do Centro Especializado de Atendimento às Vítimas (CEAV).
Tatyana
faz um apelo semelhante e reforça que a denúncia deve vir acompanhada de uma
rede de apoio. "O que eu diria para essa mulher é que ela procure
primeiramente uma rede de apoio. Se for uma situação de emergência, realmente
vá até uma delegacia especializada da mulher e ofereça essa denúncia. A partir
desse momento em que ela procura essa ajuda inicial, serão feitos os
encaminhamentos necessários para que ela possa realmente romper com esse ciclo
da violência", conclui.
Roberta Penha / Foto: Josi Dias e Rodrigo Moura
Coordenadoria de Comunicação do TJMT
imprensa@tjmt.jus.br
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