Mulheres vítimas de violência encontram apoio mútuo para recomeçar graças à Rede de Enfrentamento
Dos cinco
tipos de violência contra a mulher (física, psicológica, moral, sexual e
patrimonial), L.R.S. afirma ter sofrido “todos da lista e mais alguns”. Dos 9
aos 14 anos de idade, ela chegou a ter que dormir embaixo da cama para escapar
das tentativas de abuso por parte do irmão do pai dela, a quem recusa chamar de
tio. Já casada, sobreviveu a quatro tentativas de feminicídio por parte do
ex-marido. Mas o que a levou a obter uma medida protetiva foi uma situação que
ela mesma classifica como “bizarra”. Isso porque o agressor não era alguém com
quem tivesse relacionamento afetivo. “Eu era apenas inquilina e ele tentou me
estuprar dentro de casa”, resume.
Foi
após essa violência que L. procurou o Centro de Referência de Assistência
Social (CRAS) de Sinop (500 km ao norte de Cuiabá) para se cadastrar em
programa habitacional, já que não tinha mais condições de morar no imóvel do
agressor. “A moça do CRAS me perguntou por que eu estava tão nervosa, porque
ela estava me achando muito estranha e ansiosa. Aí eu contei o que tinha
acontecido. Ela me orientou a ir na delegacia fazer um boletim de ocorrência e
depois voltar ao CRAS, que me encaminhou ao CREAS”, relata.
Desde
então, L. tem sido atendida pela Rede de Enfrentamento à Violência Doméstica e
Familiar contra a Mulher de Sinop, composta por mais de 30 instituições
públicas e privadas, dentre elas o Poder Judiciário e o CREAS, por meio da qual
ela participa de rodas de conversa com outras mulheres com medida protetiva.
“Eu cheguei muito abalada psicologicamente e fisicamente, porque eu sempre tive
uma responsabilidade muito grande porque eu sempre fui pai e mãe dos meus
filhos. E com mais isso que vem acontecendo dá uma certa travada na mente da
gente, uma dificuldade de raciocínio na vida da gente... E aqui eu fui bem
recebida, bem orientada”, afirma.
Na
roda de conversa mediada por profissional do CREAS, cada uma conta um pouco de
si. “A gente se identifica e aquilo vai ajudando tanto a aliviar, quanto a
ensinar. Eu aprendo muito, como também ensino muito. O grupo ajuda bastante. Eu
estou me sentindo muito bem e não perco uma reunião. Se eles marcam 7h, 6h30 eu
já estou na porta. Já estou esperando o próximo encontro”, afirma L.
Ela
relata que além do contato no CREAS, as mulheres têm buscado conviver fora
daquele espaço, indicando trabalho umas para as outras, dando conselhos,
chamando para outras atividades. “É um jeito da gente conviver, da gente se
abraçar como se fosse família”.
Por
trás da muralha da dúvida, a paz
Em
meio a um casamento conturbado, o medo de ficar longe dos quatro filhos falou
mais alto do que a coragem para denunciar a violência. Durante uma agressão, o
marido chega a quebrar o celular da mulher para impedi-la de chamar por ajuda.
O filho do casal, ao ver a situação, corre até a vizinha e pede para ligar pra
Polícia. Com um boletim de ocorrência em mãos, é dado prosseguimento à medida
protetiva e encaminhamento à Rede de Enfrentamento à Violência Doméstica e
Familiar contra a Mulher de Sinop.
Assim,
A.R.P. passou a fazer parte da roda de conversa entre mulheres vítimas de
violência e seus filhos foram encaminhados para atendimentos psicológicos e
projetos sociais ligados à Educação, Cultura e Esporte. “Através de todo esse
conjunto de projetos, hoje a gente tem apoio para tentar deixar pra trás aquilo
que nos feriu. O CREAS, pra mim, foi muito importante porque eu cheguei lá sem
rumo, sem entendimento, sem orientação nenhuma, com muito medo e dúvidas sobre
o que poderia acontecer a partir do momento da decisão que eu tomei. E o CREAS
me orientou sobre os meus direitos porque, no momento em que só havia
apontamentos, o CREAS me olhava diferente, sem julgamento”.
Segundo
A.R.P., um dos motivos para não ter procurado ajuda antes foi a barreira da
dúvida e do medo de não ser acreditada. “Quando se fala em fórum, as pessoas
criam uma muralha. ‘Ah, é difícil o acesso. As pessoas não vão acreditar’. Isso
surge porque imagina que se as pessoas que estão próximas a você não acreditam,
que dirá pessoas que nunca olharam na sua cara? Eu acho que esse é o maior
obstáculo para as mulheres tomarem iniciativa porque a dúvida vem através dos
que estão ao redor, pessoas do seu sangue”, comenta.
A mãe
de família complementa que, por vezes, mulheres vítimas de violência buscam
apoio junto às pessoas erradas, e aconselha a quem esteja passando pela mesma
situação que ela viveu a deixar a dúvida e o medo para trás e buscar ajuda no
local correto. “Muitas vezes, procuramos pessoas que não estão passando a mesma
situação que a gente. Então, os conselhos dessas pessoas são sempre pra gente
prosseguir, independente se a gente esteja passando pela pior situação
possível. Então, procurar ajuda referente a isso é muito importante porque tem
profissionais que estão acostumados a orientar sobre o assunto, então eles vão
saber te direcionar, eles não vão te obrigar a tomar uma decisão que você não
queira, mas eles vão te aconselhar a tomar a melhor decisão”, avalia em relação
ao atendimento do CREAS de Sinop.
Dentre
tantas decepções com pessoas, o porto seguro na vida de A.R.P foram seus
filhos. “Eles são minha fortaleza. Hoje é gratificante saber que meus filhos
dormem a noite toda, têm um objetivo de ser diferente e ter um futuro
diferente. Isso acalenta o nosso coração. A gente não precisa de muito, a gente
só precisa da paz. Hoje eu e minhas crianças vivemos em paz. Não temos muito,
mas com Deus se torna e temos a paz, o amor, o aconchego, que é o que a gente
procurava”.
Rede
de Enfrentamento à Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher
Em
Mato Grosso, graças ao trabalho do Poder Judiciário, por meio da Coordenadoria
Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar (Cemulher-MT),
128 municípios já contam com a sua Rede de Enfrentamento à Violência Doméstica
e Familiar contra a Mulher. Trata-se do trabalho integrado entre as
instituições públicas e privadas ligadas ao atendimento de mulheres em situação
de violência, promovendo ações desde a prevenção até o acompanhamento dos
casos.
Com
uma Rede de Enfrentamento à Violência Doméstica atuante, composta por mais de
30 instituições públicas e privadas, Sinop é o quarto município do estado em
número de medidas protetivas concedidas. Somente de janeiro a maio deste ano,
foram 431 medidas protetivas concedidas pelo Poder Judiciário. E a proteção não
se limita a isso, conforme explica a juíza Rosângela Zacarkim, titular da 2ª
Vara Criminal de Sinop. “Assim que chega o pedido de medida protetiva, no mesmo
dia, a gente analisa e encaminha por e-mail para as instituições que compõem a
rede, como CREAS, polícias, Ministério Público, Secretaria de Assistência
Social do Município e eles entram em contato com as mulheres para que elas
recebam o atendimento necessário”.
Dentre
esses serviços estão a Patrulha Maria da Penha, realizada pela Polícia Militar,
que, em Sinop, visita não só a casa da mulher vítima, mas também do agressor,
que passa a ter que morar em outro endereço após a decisão judicial. Outro
serviço ocorre no próprio Fórum de Sinop, as mulheres são convidadas a
participarem de círculos de construção de paz.
Leia
também:
Mulheres
de Sinop com medida protetiva podem falar e ser ouvidas no projeto ‘Renascendo
em Círculos’
3ª
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de enfrentamento
Novas
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Celly Silva e Júnior Silgueiro / Foto: Josi Dias
Coordenadoria de Comunicação do TJMT
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