Promotor de justiça aborda como sequestrar carbono por meio da reciclagem inclusiva
“Eu
convido todos aqui a conhecerem pra onde vai o seu resíduo da sua casa”. Foi
com essa provocação que o promotor de justiça do Estado de Mato Grosso do Sul e
presidente da Associação Brasileira dos Membros do Ministério Público de Meio
Ambiente (Abrampa), Luciano Furtado Loubet, conduziu sua palestra “Sequestrando
carbono por meio da reciclagem inclusiva”, durante a 4ª Semana Nacional de
Sustentabilidade - região Centro-Oeste e o 11º Encontro de Sustentabilidade do
Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT), nesta quinta-feira (27), na sede do
Tribunal. A atividade teve a mediação do desembargador Wesley Sanchez Lacerda.
Destacando
que grandes lixões
de roupas de fast-fashion já podem ser vistos por imagens de satélite do
deserto do Atacama, por exemplo, o palestrante ressaltou que as pessoas
precisam conhecer a realidade daqueles que lidam diariamente com a cadeia de
gestão de resíduos sólidos para se conscientizarem e se mobilizarem em prol de
uma mudança que sirva não só ao meio ambiente em si, mas aos direitos humanos.
Conforme
Luciano Loubet, grandes mudanças sociais partiram não de legislações, mas de
jurisprudências, ou seja, do Poder Judiciário, dando como exemplo a concessão
de alforria a pessoas escravizadas antes mesmo da abolição da escravatura.
Trazendo para a atualidade, ele apontou a Recomendação do Conselho Nacional de
Justiça (CNJ) nº 169, de 19 de maio de 2026, que estabelece diretrizes para a
contratação remunerada de associações e/ou cooperativas de catadores e
catadoras de materiais recicláveis que realizam serviço de coleta nos tribunais
brasileiros.

Segundo
ele, apesar do grande volume de resíduos coletados por esses trabalhadores, “a
conta não fecha e a venda do material não sustenta uma cooperativa”, apontando
como base estudos realizados em Campo Grande (MS). “A coleta seletiva, no
Brasil, é o serviço público mais desperdiçado que existe”, disse, apresentando
dados que mostram que, na capital sul-mato-grossense, o Município gasta mais de
R$ 600 mil por mês com serviço de coleta seletiva, porém a adesão é de apenas
10% da população. Além disso, a maior parte do que é coletado, não é reciclada,
gerando prejuízo ao invés de lucro para os catadores. “Não é que a população
não separa, mas nem tudo o que é reciclável é efetivamente reciclado. Muita
coisa vira rejeito porque não tem viabilidade econômica”, pontuou o
palestrante.
Diante
dessa situação, Luciano Loubet ressaltou a importância da Recomendação nº 169/
2026 do CNJ, defendendo que os grandes geradores de resíduos devem pagar pela
gestão daquilo que produzem. Segundo ele, a normativa é uma “oportunidade de
reconhecimento” aos catadores, que, conforme o palestrante, precisam se
profissionalizar e se organizar em associações e cooperativas para receberem
pelos serviços prestados.
“Se
nós não observarmos, no Brasil, a importância do papel dos catadores de
materiais recicláveis, eles serão, novamente, onerados e não vão receber pelo
trabalho climático que eles desenvolvem”, disse o promotor de justiça.

“O que
o palestrante falou me impactou muito, porque o financeiro não fecha. As
pessoas olham aquele montante de material e acham que nós estamos ricos, mas,
quando a gente vende o material é tão pequena a remuneração! Ano passado, nós
quase fechamos as portas porque fazer o fechamento do lixão com a inclusão
socioprodutiva do catador não é fácil. Os gestores acabam não passando a
remuneração pra gente poder custear o aluguel de um barracão, o aluguel de um
caminhão. E a gente acaba trabalhando, recolhendo esse material e o financeiro
não fecha. O que não recicla vai pro rejeito e, pra isso, nós temos que pagar.
Nós somos catadores, mas, quando fazemos a triagem, acaba tendo algum rejeito.
Por exemplo, quando eu recolho uma cadeira quebrada, eu aproveito o ferro, mas
a espuma é rejeito. Então eu tenho que pagar uma caçamba pra levar aquele
rejeito. Então é um prejuízo enorme”, relata.
A palestra completa pode ser conferida no canal TJMT Eventos no YouTube.
Veja
fotos do evento no Flickr do TJMT.
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