Quando um filho chama

No Dia dos Pais, é natural
celebrar afeto, cuidado e dedicação. A data também deixa uma pergunta incômoda:
quando nossos filhos pensarem em nós anos depois, do que se lembrarão? Talvez
esqueçam o que lhes demos. Dificilmente esquecerão como se sentiram ao nosso
lado.
Quem trabalha na Justiça
conhece as consequências de vínculos que se romperam ou nunca chegaram a se
formar. Processos de reconhecimento de paternidade, pensão alimentícia e
convivência familiar trazem histórias marcadas por espera, conflito e ausência.
A lei pode reconhecer o vínculo, exigir sustento e proteger direitos. Nenhuma
decisão judicial, porém, consegue fazer um pai parar e ouvir o filho com
interesse.
Nos processos de família, os
autos registram as versões dos adultos, mas a infância continua enquanto o caso
é analisado. A rapidez importa. O tempo de uma criança não espera o andamento
do processo. Um ano de demora pode atravessar uma etapa inteira de sua formação
e transformar distância em costume.
Nenhum pai sabe tudo, embora
muitos sintam que deveriam ter respostas para tudo. O filho precisa se
aproximar sem achar que está incomodando quando o pai trabalha, usa o telefone
ou está cansado. É preciso ouvi-lo antes de responder, perceber quando o silêncio
esconde alguma coisa e reconhecer os próprios erros. Uma tarde comum pode ficar
na memória por décadas porque o pai interrompeu o que fazia e permaneceu ali.
Muitos homens receberam pouco
dos próprios pais e acabam repetindo a única forma de convivência que
conheceram: disciplina sem ternura e afastamento. Esse passado ajuda a explicar
a dificuldade, mas não precisa determinar o próximo gesto. Um pai pode pedir
perdão, aproximar-se sem discurso e aprender, mesmo tarde, a demonstrar afeto.
Nenhum filho convive com um
pai perfeito. Convive com um homem que trabalha, se cansa, erra e às vezes
chega tarde à conversa necessária. Um pai pode morar longe e continuar
presente. Há homens que não geraram uma criança, mas assumiram seu cuidado. Ao
reconhecer a falha, o pai pode reconstruir a relação. A indiferença repetida
ensina o filho a não esperar.
Toda criança tem direito a
sustento, proteção e convivência. Há uma necessidade que nenhum processo
consegue medir: saber que sua existência importa para alguém. Quando encontra
essa certeza no pai, o filho ganha segurança para enfrentar a vida e tem
condições de não repetir com os próprios filhos as ausências com que cresceu.
Muitos filhos esquecerão o
presente dado ao pai neste domingo. Anos depois, uma conversa na cozinha ou a
tarde em que o pai percebeu que havia algo errado poderá voltar à memória com
nitidez inesperada. Ninguém planeja essas lembranças. Elas surgem enquanto a
vida comum acontece: o telefone deixado sobre a mesa e uma conversa sem pressa.
José Zuquim Nogueira
Presidente do Tribunal de Justiça de Mato Grosso
imprensa@tjmt.jus.br
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