Podcast da Rádio TJMT aborda regras para uso do fogo e responsabilização por incêndios
Mato Grosso,
onde períodos de seca intensa, baixa umidade, temperaturas elevadas e ventos
fortes podem transformar rapidamente um pequeno foco em um incêndio de grandes
proporções, o uso do fogo em propriedades rurais exige muito mais do que uma
autorização. É preciso planejamento, adoção de medidas preventivas e controle
da operação. O alerta foi feito pelo advogado Rodrigo Bressane, especialista em
meio ambiente, sustentabilidade e agronegócio, durante entrevista ao podcast
Prosa Legal, da Rádio TJMT.
Uso do fogo
Segundo o
especialista, o produtor rural não pode simplesmente decidir colocar fogo na
propriedade por iniciativa própria. Quando a legislação permitir a prática, é
necessário obter previamente a autorização de queima controlada junto à
Secretaria de Estado de Meio Ambiente de Mato Grosso (Sema), além de verificar
se a atividade não está ocorrendo em período em que o uso do fogo é proibido.
A autorização,
no entanto, não significa que o produtor esteja livre de outras
responsabilidades. É necessário preparar a área, realizar os aceiros adequados,
definir equipamentos e pessoas para acompanhar a operação, comunicar os
confrontantes e observar as condições climáticas. “O fogo deve ser uma
ferramenta excepcional, mas sempre planejada, autorizada e controlada”,
explicou Bressane.
Três tipos de
responsabilidade
Caso o fogo
saia de controle e provoque danos, a ocorrência pode gerar consequências nas
esferas administrativa, civil e criminal. O advogado explicou, porém, que a
simples constatação de fogo em uma propriedade não é suficiente para
responsabilizar automaticamente o proprietário.
Na esfera
administrativa, é necessário demonstrar a relação entre a conduta do produtor e
o dano ocorrido. Já na esfera criminal, também é preciso comprovar os
requisitos previstos na legislação penal. Na área civil, havendo dano ambiental
e comprovado o nexo de causalidade, pode haver obrigação de reparar
integralmente o dano, independentemente de culpa.
Áreas
protegidas
A situação pode
se tornar ainda mais grave quando o incêndio atinge uma Área de Preservação
Permanente (APP) ou uma área de Reserva Legal e provoca danos à vegetação.
Nesses casos, além da apuração sobre a origem do fogo, há uma preocupação
adicional com a recuperação ambiental.
A prioridade na
esfera civil é a recomposição do meio ambiente, podendo haver obrigação de
recuperar a vegetação, apresentar projeto de recuperação e, dependendo do caso,
indenizar outros danos ambientais devidamente comprovados.
Provas são
fundamentais
Um dos
conceitos destacados durante a entrevista foi o de nexo causal, que é a relação
entre a conduta de uma pessoa e o dano ocorrido. Para identificar essa relação,
podem ser utilizadas imagens de satélite, perícias, fotografias, vídeos,
drones, registros meteorológicos, depoimentos de testemunhas, registros de
brigadistas, comunicações de vizinhos e documentos da propriedade.
A perícia
também pode ajudar a identificar o provável ponto de início do incêndio e a
direção de propagação das chamas. Por isso, conforme explicou o especialista,
não se pode concluir que o proprietário é responsável apenas porque o fogo foi
encontrado dentro de sua fazenda. É necessário investigar a origem do incêndio
e estabelecer a relação entre uma ação ou omissão e o dano.
Clima também
deve ser considerado
As condições
climáticas são outro elemento importante na análise de cada caso. Em períodos
de seca extrema, ventos fortes e baixa umidade, um foco pode se espalhar
rapidamente. Entretanto, as condições climáticas, sozinhas, não afastam
automaticamente a responsabilidade.
É preciso
verificar se o produtor adotou as medidas preventivas, fez os aceiros, tinha
equipamentos disponíveis, acompanhou a operação, respeitou as condições
estabelecidas na autorização, tentou combater o incêndio e comunicou os órgãos
competentes. “Seca, vento e baixa umidade não são uma autorização para
descuidar, mas também não podem ser ignorados quando se investiga o incêndio”,
ressaltou Bressane.
Prevenção e
documentação
Ao final da
entrevista, o especialista reforçou que quem pretende utilizar o fogo deve
verificar se a prática é permitida naquele momento, obter a autorização quando
exigida e adotar todas as medidas preventivas. Em caso de incêndio, também é
fundamental registrar as providências tomadas. “Tão importante quanto prevenir
o dano, é conseguir demonstrar posteriormente o que de fato e efetivamente
ocorreu”, afirmou.
O episódio do Prosa Legal com Rodrigo Bressane está disponível pela Rádio TJMT, no portal do Tribunal de Justiça de Mato Grosso. Ouça aqui!
Roberta Penha / Foto: Assessoria-TJMT
Coordenadoria de Comunicação do TJMT
imprensa@tjmt.jus.br
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