Projeto Raízes da Paz fortalece diálogo e transforma a convivência em escola de Várzea Grande
Antes,
um desentendimento podia terminar em xingamento ou até em uma briga. Hoje, os
estudantes da EMEB Joaquim da Cruz Coelho, em Várzea Grande, estão descobrindo
que existe outro caminho: sentar em roda, falar sobre o que sentem, ouvir o
outro e buscar juntos uma solução. A mudança é resultado do projeto “Raízes da
Paz: Cultivando Diálogo e Fortalecendo Vidas”, iniciativa do Tribunal de
Justiça de Mato Grosso (TJMT), por meio do Cejusc da Comarca de Várzea Grande,
em parceria com a Prefeitura Municipal, via Secretaria Municipal de Educação,
Cultura, Esporte e Lazer (SMECEL).
Iniciado
como projeto-piloto em janeiro deste ano, na EMEB Joaquim da Cruz Coelho, o
Raízes da Paz utiliza metodologias de Justiça Restaurativa e os Círculos de
Construção de Paz para prevenir conflitos e fortalecer os vínculos entre
estudantes, professores, servidores e famílias. A proposta é criar espaços
seguros de escuta, reflexão e diálogo, tornando o ambiente escolar mais
acolhedor e humanizado.
Do
silêncio à conversa
Segundo
a pedagoga articuladora e facilitadora do projeto, Marilene Silva Rodrigues, a
transformação já pode ser percebida no comportamento dos estudantes. “Quando
nós iniciamos o projeto Raízes da Paz aqui na Escola Joaquim da Cruz Coelho,
nós encontramos os alunos com muita resistência, pouco diálogo e curiosos, mas
muito tímidos. E hoje o que nós vemos é uma comunicação não violenta, um
diálogo aberto, as brincadeiras salutares. Nós temos tido um ambiente muito
bom”.
Para
ela, as atividades também desenvolvem habilidades importantes para a vida dos
estudantes. A intenção é que a experiência seja ampliada para toda a rede
municipal. “A proposta é que todas as escolas possam usufruir dessa ferramenta,
que é o Círculo de Construção de Paz, nas EMEBs de todo o município”, afirmou.
O
juiz da Vara da Infância e Juventude de Várzea Grande, Tiago Nogueira de Abreu
explica que o projeto nasceu a partir de um diagnóstico realizado pela Vara da
Infância, que
mapeou regiões com maior ocorrência de atos infracionais
envolvendo adolescentes e analisou o perfil das famílias. “Nasceu, então, o
Projeto Raízes da Paz. Iniciamos nessa escola municipal com a ideia de levar a
cultura da paz”, explicou.
De
acordo com o magistrado, os primeiros resultados já são percebidos no ambiente
escolar e nas relações familiares. “O projeto já se demonstrou eficiente, nós
tivemos uma melhora significativa no desempenho desses alunos na escola e,
consequentemente, nas próprias famílias e na sociedade”, destacou.
Tiago
Abreu também aponta uma perspectiva de expansão da iniciativa. “A ideia nossa é
expandir para as outras regiões aqui de Várzea Grande e, quem sabe, multiplicar
esse modelo para todo o Estado de Mato Grosso".
“Ficou
melhor resolver assim”
Para
quem participa dos círculos, a mudança é concreta. A estudante do 9º ano
Gênesis Patron conta que, no início, havia vergonha e dificuldade para falar
sobre os problemas. Com o tempo, os alunos passaram a se sentir mais seguros
para se
expressar. “No começo foi meio difícil, porque a gente tinha vergonha
de falar, de conversar. Só que aí o tempo foi passando e a gente conseguiu se
abrir mais”, relatou.
Ela
conta que aprendeu uma nova maneira de lidar com os conflitos. “A gente
aprendeu a resolver os conflitos de uma forma diferente, a não resolver como
resolvia antes, que era xingando. A gente aprendeu a resolver conversando”.
Para
Gênesis, o diálogo tornou as relações mais tranquilas. “É muito melhor assim do
que como se resolvia antes. Ficou melhor resolver assim”, disse.
A
estudante do 8º ano Yasmin Sofia também percebeu a mudança. Ela conta que
inicialmente ficou nervosa por não saber exatamente como seriam as atividades,
mas aos poucos passou a compreender a proposta. “Foi um momento de conversa,
onde a gente se abria. Em todas as salas tem uma rodinha onde a gente ficava
conversando de boa”, explicou.
Para
ela, o espaço criado pelo projeto permite falar sobre sentimentos e problemas
que muitas vezes não são compartilhados nem mesmo dentro de casa. “A gente tem
um momento de conversa, onde a gente se abre. Coisa que a maioria das pessoas
que não consegue nem ter um diálogo com os próprios pais. E ali a gente se
abre, vai conversando, vai soltando tudo pra fora”.
Reflexos
que ultrapassam a sala de aula
A
diretora da EMEB Joaquim da Cruz Coelho, Rosalina Marques de Almeida afirma que
a escola recebeu a iniciativa “com muita alegria e satisfação”. Para ela, o
projeto tem contribuído especialmente para acolher estudantes em situação de
vulnerabilidade. “Ele visa orientar, acolher as crianças em vulnerabilidade
também. A EMEB abraçou a causa e vem fazendo uma transformação na vida das
crianças”, afirmou.
A
coordenadora escolar, Dalva Maria de Arruda também percebe reflexos no
cotidiano. Segundo ela, o projeto trouxe um momento importante de paz, diálogo
e reflexão sobre atitudes
e respeito ao próximo. “Foi de grande valia para a
nossa unidade escolar, porque precisava desse momento de paz, de diálogo, de
reflexão sobre atitudes, de muitos alunos em respeito ao outro”, avaliou.
Segundo
Dalva, os efeitos já chegaram às famílias. “Os pais estão vendo essa mudança,
vêm até a escola, contribuem, falam que isso está refletindo lá também”,
contou.
A
arte como ferramenta de transformação
A
professora de Artes Maria Elisa Pompeu também participa das atividades e
destaca a importância da arte na construção de relações mais empáticas. “Eu
acho muito interessante a arte estar inserida no projeto. E com isso eles vão
tendo a possibilidade tanto de trabalhar o desenho, mas também de conviver, de
uma transformação, porque a arte nada mais é do que transformar o ser humano”,
afirmou.
Para
a professora, a proposta contribui para fortalecer a empatia e a união entre os
estudantes. “O objetivo é ter mais empatia, ter mais união, fortalecer mais
essa vivência entre eles”.
O
projeto prevê encontros periódicos ao longo de 2026 com estudantes,
professores, servidores e famílias. A expectativa é que a experiência da
escola-piloto contribua para aperfeiçoar a metodologia e possibilite sua
expansão para outras unidades da rede pública, fortalecendo a cultura da paz e
o desenvolvimento integral dos estudantes.
Roberta Penha / Foto: Assessoria-TJMT
Coordenadoria de Comunicação do TJMT
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