Apoio masculino é fundamental no câncer de mama
Quando o diagnóstico de câncer de mama chega em um exame médico, o chão some para a mulher que irá enfrentar a grave doença. Como suporte para manter a família em pé e apoiar a esposa debilitada, o homem também passa por um processo difícil, de forma que ele merece uma atenção especial na campanha Outubro Rosa.O servidor Giovanni Augusto Corrêa de Almeida Junior, 32 anos, assessor de gabinete da Vara Especializada em Ação Civil Pública e Ação Popular de Cuiabá, é um exemplo de amor e companheirismo. Ele ficou ao lado de sua então noiva Luviely da Silva Pereira, 28 anos, desde o diagnóstico do câncer de mama às sessões de quimioterapia, em todas as consultas médicas, na cirurgia de mastectomia (retirada da mama) e até chegou a ficar careca e usar lenço – assim como Luviely – na cerimônia de casamento do casal, que foi realizada enquanto ela se tratava.
No início da suspeita do câncer, Giovanni foi quem insistiu para que a noiva fizesse uma biópsia e procurasse profissionais de saúde para achar o diagnóstico correto. Ele foi o encarregado de buscar o resultado do exame, e conta que ler o papel lhe deixou sem reação. “Eu abri o exame e já deu o carcinoma, que é o câncer. Fiquei sem reação. Naquele momento eu perdi o chão, não sabia o que fazer nem para quem ligar, o que falar. Fiquei um dia inteiro com essa informação e ela me cobrando se eu tinha pego o exame, eu disse que não. No outro dia, quando ela me questionou de novo, eu não consegui falar nada. Simplesmente chorei”.Desesperada com a situação, Luviely quis terminar o relacionamento de quase cinco anos. Ela achava que Giovanni não precisava passar por aquilo, pois ela atrapalharia a vida dele, o câncer poderia ser fatal, ele não merecia conviver com a doença e chegou a cogitar que ele permanecia com ela por dó. “Eu sempre deixei claro que estava com ela porque eu a amava, nós iríamos superar tudo juntos. Tentei passar da melhor forma possível que eu a amava e não estava com ela só por causa da beleza e sim pela pessoa que eu conheci. Realmente foi o amor que nos segurou nessa barra”, relembra.
Em uma questão de meses, Luviely já estava curada do câncer. Ela reagiu muito bem à quimioterapia, precisou retirar as duas mamas – até como forma de prevenção – e conseguiu implantar as próteses de imediato. Hoje sua saúde está quase restabelecida e o casal faz planos para comprar um apartamento, adotar uma criança e, quem sabe, gerar um filho quando passar o período de cinco anos necessários para uma gestação pós-tratamento.Infelizmente o apoio que Giovanni deu a Luviely não é a realidade para muitas mulheres. Ester dos Santos Viana, 47 anos, viu seu casamento de 24 anos se desfazer em um piscar de olhos ao revelar o diagnóstico de câncer de mama ao marido. “Quando eu contei que estava com câncer, ele ficou parado olhando para mim. Depois foi para o quarto. Eu achei que ele estava chorando, mas não. Após 20 minutos, ele passou com as malas perto de mim, foi embora e nunca mais voltou, nem para perguntar se eu estava viva ou morta”, recorda.
Após o episódio, Ester passou três dias e três noites chorando imóvel no sofá de casa. Sem comer, beber ou dormir, sentiu-se a pior pessoa do mundo e só pensava em se entregar à doença. “Você vive com a pessoa tanto tempo, acha que na doença ela estará do seu lado. Ele jurou na igreja quando nos casamos, então eu achava que iria me acompanhar na doença, na tristeza, mas não foi. Eu pensava que iria morrer”.Apesar do abandono de quem ela mais esperava cuidado, o amor do neto de três anos de idade à época fez Ester criar forças para lutar pela vida. Ele acariciou o rosto da avó, disse para ela não ficar triste, e seu coração se encheu de coragem e força para enfrentar aquela jornada sozinha.
Uma amiga lhe deu todo o suporte necessário para começar o tratamento, pois Ester morava em São José dos Quatro Marcos (315 km a oeste de Cuiabá) e precisou se mudar para a Capital. Ela passou a morar na casa dessa amiga, que é enfermeira, e lhe auxiliou na obtenção de todos os procedimentos médicos necessários. Os filhos de Ester continuaram morando no interior e ela passou os dois anos de tratamento sem a família em Cuiabá. A Associação MT Mamma entrou em cena como um ponto de apoio de extrema importância para sua recuperação. Os membros da associação auxiliaram Ester a alugar uma quitinete, ajudaram na mobília, ofereceram várias terapias ocupacionais para ela e depois um emprego. Durante os dois anos de tratamento, a MT Mamma foi praticamente seu lar. “Eu ficava o dia todo costurando, fazendo terapia, ocupada. Aquilo foi me ajudando a me livrar daquela tristeza, da dor, daquele rancor e do ódio. Se eu não tivesse tido apoio aqui, tinha feito alguma besteira”.
A médica radiologista Heloisa Ulysséa lida com o diagnóstico de câncer de mama diariamente, realizando ultrassons, mamografias e biópsias em pacientes que suspeitam da doença. Ela afirma que o suporte emocional é importantíssimo, em qualquer patologia, sobretudo no câncer. “As pessoas que têm uma estrutura familiar mais agregadora, que têm companheiros de verdade são pessoas que passam melhor pelo tratamento. Um suporte emocional é importantíssimo. Sempre temos que avaliar se nossas relações existem, se são verdadeiras e se elas são para todas as horas. Na correria do dia a dia, dificilmente as pessoas questionam suas relações. Quando se deparam com situações graves, elas se veem sozinhas, mas na verdade elas já estão sozinhas há muito tempo”, reflete a médica.Na clínica em que trabalha, Heloisa estima que apenas 10% das mulheres têm a companhia de seus parceiros na realização dos exames, enquanto a maioria dos homens sempre está acompanhada de suas esposas ou namoradas.
“As mulheres têm esse instinto construtivo, cuidador. Ela está sempre dando suporte aos filhos e ao marido. Em contrapartida, o homem não é assim. O homem é mais centrado em si, nos seus problemas, ele acha que a família é responsabilidade da mulher. Diante de uma situação que aflija a saúde da mulher, o que a gente observa que ela está sempre só. A gente cuida de todos, mas poucos nos cuidam”, reflete a médica. Aparência – Um dos pontos mais críticos que abalam a maioria dos relacionamentos de mulheres com câncer de mama é a questão da aparência feminina. A mutilação dos seios – um órgão extremamente importante tanto para a fisiologia feminina, quanto para a estética e a sexualidade – prejudica muito a autoestima, a libido e a segurança da mulher, dentre outros aspectos. De acordo com a médica radiologista, isso afeta muito a relação do casal de uma forma diferente dos outros tipos de câncer.
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O câncer de mama muitas vezes impõe uma alteração física. O homem tem uma rejeição maior a qualquer tipo de mutilação. Por exemplo, o câncer de colo uterino é interno, não se vê, então a cirurgia não afeta tanto a relação. Agora, na cirurgia de mama que leva a uma redução do volume da mama, a colocação de uma prótese de um lado só, ou uma alteração física por menor que seja, nós observamos uma rejeição da figura masculina. Ele teme e rejeita. É impressionante”, observa a médica radiologista.
O câncer de mama muitas vezes impõe uma alteração física. O homem tem uma rejeição maior a qualquer tipo de mutilação. Por exemplo, o câncer de colo uterino é interno, não se vê, então a cirurgia não afeta tanto a relação. Agora, na cirurgia de mama que leva a uma redução do volume da mama, a colocação de uma prótese de um lado só, ou uma alteração física por menor que seja, nós observamos uma rejeição da figura masculina. Ele teme e rejeita. É impressionante”, observa a médica radiologista.Seja pela questão da aparência, do medo de acompanhar a esposa doente ou por qualquer outra razão, Ester Viana não entende até hoje – sete anos depois e curada do câncer – por que foi abandonada pelo ex-marido. “Por qual motivo ele fez isso comigo? Eu queria uma explicação. Ele não me deu uma explicação até hoje. Às vezes eu ficava a noite inteira imaginando por que ele fez isso. Eu fazia tudo por ele, se ele tivesse câncer, eu estaria com ele até a morte”, enfatiza.
Apesar de todo o sofrimento, Ester superou a doença, o abandono e hoje está com uma nova vida, dando palestras para outras mulheres que passam pela mesma situação. “Acho que tive que passar por todo esse processo para aprender a cuidar de mim mesma. Eu vivia só para minha família, não passeava, não me arrumava. A lição que eu tirei é me amar para depois amar outras pessoas. Hoje penso mais em mim para depois pensar nos outros”.Confira AQUI a reportagem da TV.JUS sobre o assunto.
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Mylena Petrucelli/Fotos: Tony Ribeiro (F5)
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