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 24/08/2017   16:30 

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Justiça Restaurativa: palestra promove reflexão

Histórias relacionadas a abuso sexual, abandono afetivo e violência psicológica costumam ficar escondidas no seio familiar, raramente são trazidas à tona pelas vítimas deste tipo de agressão. Em alguns raros momentos, quando se sentem à vontade para desabafar, essas ‘vozes’ ganham corpo e tornam-se públicas. Foi exatamente isso que aconteceu na manhã desta quinta-feira (24 de agosto), durante uma programação da Semana da Justiça pela Paz em Casa – Justiça Restaurativa, realizada na Escola Estadual Dione Augusta Silva Souza, no bairro CPA IV, em Cuiabá, que levou muitos dos presentes às lágrimas.
 
Tocados pelas palavras da juíza auxiliar da Corregedoria Ana Cristina da Silva Mendes a respeito da importância da restauração de laços familiares e do perdão, quatro adolescentes se dispuseram a narrar suas experiências pessoais envolvendo o próprio núcleo familiar. Em comum, todos vivem desde a infância sem a figura paterna.
 
Natália conta que os pais se separaram quando ela era pequena e que acabou sofrendo um trauma aos quatro anos. Por muito tempo ela culpou o pai pelo fato, que, segundo ela, poderia não ter acontecido se os pais ainda fossem casados e ele estivesse em casa. A jovem relata ter vivido anos de depressão. Na escola, tinha um comportamento inadequado, como forma de espantar os colegas. Isso só mudou após tratamento psicológico e a decisão interna de mudar. “Procurei meu pai e decidi perdoá-lo. Hoje vejo que estou melhor”.
 
Gleicy também trouxe à tona uma triste história familiar. Os pais se separaram quando ela tinha quatro anos. Numa ocasião, quando a irmã, à época com 12 anos, foi buscar o dinheiro da pensão alimentícia na casa do pai, acabou sendo abusada sexualmente. Após a agressão, ele ficou desaparecido por anos, deixando os três filhos para trás. “Meu pai hoje quer conhecer a gente, mas ainda não consegui perdoá-lo. Eu não o conheço, não sei quem ele é. Infelizmente não sei o que uma relação entre pai e filha”.
 
Gilmar também foi vítima de abandono afetivo após a separação dos pais. Durante quase toda a infância, o pai foi figura ausente em casa. “Há dois anos ele voltou, disse que estava arrependido. Eu perdoei o erro dele, mas ainda não consegui aceitá-lo”. Vanessa foi a quarta aluna a expor sua vivência. Nascida surda, ela foi criada apenas pela mãe, pois enfrentou a rejeição paterna a vida inteira, pois ele não aceitava a deficiência da filha. O pai, que chegou a se envolver com drogas e a ameaçar a ex-companheira de morte, faleceu há alguns anos. Apesar de não ter tido tempo de se reconciliar com o pai, a estudante manteve otimista em relação ao futuro. “Tenho orgulho de ser surda. Ainda vou ter uma história muito bonita”, contou Vanessa por meio de uma intérprete.
 
Aos estudantes, a magistrada palestrante contou a própria história. Oriunda de família pobre e filha de mãe solteira, ela revelou que desde cedo aspirava à magistratura. “Cheguei onde estou porque nutri meu sonho desde a infância. Saibam que não importa o que aconteceu no passado, todos podem construir o próprio futuro, independe das circunstâncias”, assegurou. Aos que eventualmente vivenciam a violência doméstica no próprio lar, a juíza Ana Cristina enfatizou a importância de romper esse ciclo. “Vocês não tem que viver a vida de seus pais. Cada um de nós tem que viver seu próprio ciclo! Saibam que bater e apanhar não faz parte de uma relação. No relacionamento não existe a frase ‘foi só uma briga’. Existem sim discussões, mas a violência não”, assinalou a magistrada.
 
Na ocasião, ela aproveitou para informar os estudantes sobre a Lei Maria da Penha e da necessidade da mudança da cultura machista de tratar as mulheres como objeto. Explicou ainda o que é a Justiça Restaurativa, ou seja, o novo modelo de Justiça voltado a solucionar, por meio de diálogos, os problemas que desencadearam ações judiciais. “A Justiça não visa apenas resolver o processo. Queremos restaurar relacionamentos, famílias, sentimentos. É o novo ideal da Justiça, que quer restaurar laços e vidas”.
 
Bastante emocionada com as histórias que ouviu, a juíza enfatizou a importância de dar atenção aos estudantes. “Hoje eu me emocionei muito porque realmente foi tremendo. Tudo que a gente viu, toda a fala deles, a gente vê como as pessoas estão precisando de ajuda e às vezes essa ajuda é um abraço, uma fala de esperança. Eu creio que levando isso através da Justiça Restaurativa é possível fazer resgates e provocar mudanças. O passado está feito, mas o futuro a gente pode construir. A construção de um novo tempo tem que ser um objetivo e para isso precisamos sair do rancor, da mágoa, do ressentimento, desse ciclo de violência tão doloroso, arrasador e doentio”.
 
De acordo com a articuladora de projetos da escola, Teresinha Nalim, a palestra proferida hoje foi essencial aos alunos. “A gente precisa muito desse acompanhamento por uma pessoa especialista porque nós aqui no dia a dia trabalhamos, a todo minuto, a todo tempo, tentando contornar essas situações, porque a maioria deles tem problemas, a gente sabe que tem, não só os alunos da Escola Dione, mas os jovens de maneira geral. Hoje dentro da escola um dos maiores problemas é exatamente a questão familiar. O jovem não deixa esse problema em casa, ele traz para a escola, então nós lidamos com essa questão diariamente. Então aqui nós tentamos contornar, conversamos, chamamos a família, e fazemos os encaminhamentos que nós consideramos necessários para ajudá-los um pouco”, observou.
 
A palestra foi promovida pela Coordenadoria da Mulher em Situação de Violência Doméstica no âmbito do Poder Judiciário de Mato Grosso (Cemulher), durante a 8ª etapa da campanha ‘Justiça pela Paz em Casa’.
 
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Lígia Saito/Fotos: Otmar de Oliveira (F5)
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