Projeto viabiliza recomeço, avalia agressor
Apesar de apenas poucos meses de convivência, o relacionamento do enfermeiro Fernando, de 29 anos, com a namorada Lívia, não ia bem. As discussões tornavam-se cada dia mais frequentes e, há aproximadamente cinco meses, após dois dias de intensas discussões e num momento de descontrole emocional, ele desferiu um tapa no rosto dela. Uma vizinha, que ouvia as discussões, acabou chamando a Polícia. Ele foi preso e uma das condições para ser solto foi a participação no projeto “Bem de Família”, desenvolvido pela Vara Especializada de Violência Doméstica e Familiar da Comarca de Várzea Grande.Ao todo, Fernando – que responde pelo crime de lesão corporal e ameaça - precisa frequentar seis reuniões mensais ofertadas pela equipe multidisciplinar do Fórum. No último dia 10 de agosto, ele marcava presença em sua quarta reunião. A obrigação que para muitos poderia parecer um fardo, para ele tornou-se um momento especial e prazeroso. “A maioria dos casos que geralmente acaba em uma tragédia maior, como um homicídio, começou numa discussão, num empurrão. Começa numa agressão simples e acaba evoluindo. Então, essa intervenção do Poder Judiciário é importante. Eu sou totalmente a favor e hoje tenho prazer em vir aqui”, comenta.
Segundo o enfermeiro, nos círculos restaurativos ele aprendeu que ninguém tem o direito de exercer poder sobre outra pessoa. “A gente vem com um conceito errado de relacionamento de que briga é normal, que as discussões são normais, e não são. E aqui você acaba tendo uma percepção de não deixar as coisas evoluírem. Independente do que aconteceu, independente da situação, independente de os dois estarem de cabeça quente, eu sou responsável pelas minhas escolhas. Em momento algum eu a ameacei de morte, mas pelo fato de ter dado o tapa ela se sentiu ameaçada. É uma ameaça né, não deixa de ser”, comenta.Ele conta que nas primeiras reuniões no Fórum muitas vezes os participantes se colocam como vítimas, mas que aos poucos passam a reconhecer seus próprios erros. Fernando revela que foi difícil se assumir como um agressor e que vivenciou muitos conflitos internos nesse período. “Leva um tempo até você aceitar que estava agredindo a companheira e entender um pouco mais da lei, e também que a agressão não é só fisicamente, mas psicologicamente, socialmente e de outras formas também. Se você aceita isso, passa a ter mais respeito no seu relacionamento, entender um pouquinho que o amor é diferente de exercer poder”, assinala.
Para o enfermeiro, os encontros do projeto “Bem de Família” têm sido fundamentais para a mudança de pensamento dos participantes e também para coibir novos casos de violência doméstica. “No meu caso foi a primeira e última vez que isso irá acontecer. Com certeza a interferência do Judiciário contribui para que as agressões deixem de existir. Hoje eu sei que eu não entendia nada da Lei Maria da Penha e acredito que a maioria dos participantes que está aqui também não. Teremos resultado se as pessoas estiveram abertas a receber o que a psicóloga e assistente social passam pra gente, se reconhecerem o erro”, complementa Fernando. Após um breve período de separação, ele se reconciliou com a companheira.
Uma das responsáveis pelos círculos restaurativos, a assistente social Aparecida Soares explica que o objetivo do “Bem de Família” é contribuir para a redução da violência doméstica e familiar. “Esse projeto se propõe a trabalhar com os agressores. As atividades são realizadas em grupo e o principal foco é a ação educativa em grupo. Hoje o tema é saúde e bem-estar, e através desses trabalhos em grupo nós trazemos as temáticas a serem trabalhadas com eles. Já foram trabalhados outros temas como violência doméstica, questão de gênero e a própria Lei Maria da Penha, pois também é necessário um aprofundamento por parte dos participantes”. Já a psicóloga Kátia Simone Araújo Silva, também responsável pela condução dos encontros, salienta que os círculos têm trabalhado bastante a responsabilidade pelos próprios atos. “Pelo que percebi, é sempre culpa do outro, o outro é o responsável, foi o outro que fez... A gente está trabalhando bastante para que eles entendam que eu sou responsável sim por aquilo que faço”.

Outro assunto abordado é a repetição de comportamento familiar, característico de famílias com núcleos conflituosos. “Eles dizem ‘meu avô xingava minha vó, meu pai também, então eu cresci assim. Então pra mim isso é normal’. Isso é tão fato que a gente percebe na fala deles quando dizem ‘eu não sabia que isso era agressão’. E eles realmente não sabiam. E você tem que sensibilizar, ensinar, é bem didático mesmo, é uma sensibilização desde o início. Você tem que ensinar a pessoa a olhar com um olhar diferente para o outro”, observa.
Kátia comenta ainda que a questão do uso de álcool e drogas também é muito presente entre os participantes. “Se a gente identifica uma dependência de álcool, a gente encaminha para um de nossos parceiros, que pode ser o Caps AD ou o Centro Universitário de Várzea Grande. Temos parceiros do município, do Estado e também entidades particulares para esses encaminhamentos”, finaliza.
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Lígia Saito (texto e fotos)
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