Justiça Restaurativa promove diálogo entre estudantes e fortalece combate ao bullying nas escolas
Ofensas disfarçadas de brincadeiras, apelidos constrangedores e situações de exclusão fazem parte da realidade de muitos adolescentes no ambiente escolar. Para mostrar que o diálogo pode transformar essas relações, o Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT), por meio do Núcleo Gestor da Justiça Restaurativa (NugJur), promoveu um Círculo de Construção de Paz com estudantes da Escola Estadual Cívico-Militar Leovegildo de Melo. A atividade integrou as ações de prevenção à violência e ganhou destaque neste 20 de outubro (terça-feira), data dedicada à conscientização e ao combate ao bullying.Durante o encontro, adolescentes tiveram a oportunidade de compartilhar experiências, falar sobre sentimentos e ouvir os colegas em um ambiente de acolhimento e respeito. A proposta foi estimular a reflexão sobre comportamentos que, muitas vezes, são considerados brincadeiras, mas podem provocar sofrimento emocional, prejudicar a aprendizagem e comprometer a convivência escolar.
Para alguns estudantes, a experiência representou mais do que uma conversa. Foi uma oportunidade de reconstruir amizades e superar desentendimentos. A estudante E.K., de 15 anos, contou que o Círculo ajudou a aproximar colegas que estavam afastadas por conflitos. “Eu gostei porque as meninas foram muito verdadeiras, se abriram e falaram tudo o que sentiam. A gente estava brigada com algumas e conseguiu voltar com a amizade. Foi muito bom aquele Círculo”, relatou.
A adolescente também destacou a importância de respeitar as diferenças e compreender os sentimentos dos outros. “A gente não gosta de ser machucado e também não deveria machucar ninguém”, afirmou, ao refletir sobre situações de bullying que presencia na escola.
A estudante M.E., de 16 anos, conhece de perto as consequências dessas agressões. Ela contou que já foi alvo de comentários ofensivos relacionados à aparência física e que essas experiências afetaram sua autoestima. Ao participar da atividade, encontrou um espaço para ouvir outras histórias e perceber que o diálogo pode contribuir para mudanças. “Achei muito importante porque ouvi o lado das outras meninas e consegui entender melhor. Agora me sinto mais tranquila”, disse.
Diálogo para transformar comportamentosA Justiça Restaurativa busca prevenir e solucionar conflitos por meio da escuta, da responsabilização e da construção coletiva de soluções. Nas escolas, os Círculos de Construção de Paz permitem que estudantes e educadores expressem sentimentos, reconheçam os impactos de suas atitudes e desenvolvam formas mais respeitosas de convivência.
Segundo o assessor de relações institucionais do NugJur, Rauny Viana, a iniciativa faz parte de uma transformação cultural que envolve não apenas os estudantes, mas toda a comunidade escolar. “As práticas restaurativas trabalham essa transformação por meio do diálogo e do sentimento de pertencimento. Isso contribui para criar consciência sobre os próprios comportamentos e pode melhorar as relações entre alunos e professores”, explicou.
Ele destacou que os resultados desse trabalho são construídos gradualmente e que experiências desenvolvidas em outras unidades escolares já servem de referência para ampliar as ações. “A mensuração dos resultados acontece a médio e longo prazo, mas o impacto inicial do projeto piloto desenvolvido na Escola Maria Divina já tem servido como modelo para ser replicado em outras escolas”, ressaltou.
Na Escola Leovegildo de Melo, a psicóloga Layana Noronha de Oliveira acompanha de perto os desafios enfrentados pelos estudantes. Segundo ela, muitos conflitos que chegam à sala de aula têm origem nas relações familiares e nas formas de comunicação aprendidas fora da escola.“A violência é aprendida. Ninguém nasce violento. Muitas vezes, o estudante reproduz na escola comportamentos que vivencia em casa. Por isso, precisamos trabalhar não apenas com o aluno, mas também buscar a participação da família nesse processo”, explicou.
Para a psicóloga, a formação oferecida pelo TJMT tem contribuído para ampliar as possibilidades de atuação dos profissionais da educação. Ela participou de capacitações sobre Círculos de Construção de Paz e destaca que os conhecimentos adquiridos passaram a fazer parte da rotina escolar.
“O Tribunal nos ajudou bastante com os cursos. Foi muito importante vivenciar o Círculo antes de aprender a aplicá-lo. Hoje, levamos esse conhecimento para dentro da escola, não apenas durante os encontros, mas também nas conversas e nas situações do dia a dia com os estudantes”, afirmou.
Layana acrescentou que o trabalho também envolve orientar os adolescentes sobre direitos, deveres e consequências de suas atitudes. “Quando falamos de bullying, mostramos que existem leis que protegem os estudantes, mas também responsabilidades. Não se trata de provocar medo, e sim de fazer com que compreendam a importância de respeitar o outro”, completou.
Rede de proteção e prevençãoO enfrentamento ao bullying também exige a atuação conjunta de diferentes instituições. A psicóloga Giovanna Rondon Prates, do Núcleo de Mediação Escolar da Secretaria de Estado de Educação (Seduc), explicou que a rede estadual desenvolve, há mais de dez anos, ações contínuas de prevenção à violência, com atividades distribuídas ao longo do calendário escolar.
“Trabalhamos mensalmente diferentes temáticas, como bullying, cyberbullying, violência contra meninas e mulheres e outras formas de violência. Também contamos, desde 2024, com psicólogas e assistentes sociais nas escolas e nas diretorias regionais, oferecendo suporte à comunidade escolar”, detalhou.
O psicólogo Hallison José Gonçalves de Souza, da Diretoria Metropolitana de Educação, também chamou a atenção para a influência das relações familiares na reprodução de comportamentos agressivos. Segundo ele, atitudes naturalizadas em determinados ambientes podem ser interpretadas como ofensivas ou violentas quando reproduzidas na convivência escolar.“Muitas vezes, aquilo que é tratado como brincadeira dentro de casa acaba sendo reproduzido na escola. Quando diferentes realidades se encontram, surgem conflitos e situações de desrespeito. Por isso, precisamos trabalhar a conscientização e envolver as famílias nesse processo”, explicou.
Hallison defendeu a integração entre escolas, Conselho Tutelar, instituições de ensino superior, órgãos de segurança e Poder Judiciário. Para ele, a união de esforços permite ampliar as ações preventivas e oferecer respostas mais adequadas às situações de violência.
Justiça Restaurativa nas escolasNo TJMT, o NugJur é responsável pela gestão da política de Justiça Restaurativa e atua na disseminação de práticas que valorizam o diálogo, a escuta e a solução colaborativa de conflitos. Entre suas atribuições está a formação de facilitadores, profissionais capacitados para conduzir Círculos de Construção de Paz em diferentes ambientes, inclusive nas unidades escolares.
As capacitações envolvem professores, psicólogos, gestores, servidores, magistrados, assistentes sociais e outros integrantes da comunidade. A proposta é que os conhecimentos adquiridos sejam multiplicados, contribuindo para a construção de ambientes mais seguros, acolhedores e respeitosos.
Ana Assumpção / Foto: Josi Dias
Coordenadoria de Comunicação do TJMT
imprensa@tjmt.jus.br
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