Método CIS estimula reflexão e novos projetos de vida no sistema prisional de Rondonópolis
Uma
nova maneira de enxergar a própria história, reconhecer os erros e acreditar
que é possível recomeçar. Essa foi a experiência relatada por uma pessoa
privada de liberdade da Penitenciária Major PM Eldo Sá Corrêa, conhecida como
Mata Grande, em Rondonópolis, após participar do Método CIS (Coaching Integral
Sistêmico). A iniciativa, incentivada pela juíza Sabrina Andrade Galdino
Rodrigues, titular da 4ª Vara Criminal de Rondonópolis, busca contribuir para a
ressocialização por
meio do autoconhecimento, do controle emocional e da
construção de novas perspectivas de vida.
Desde
junho deste ano, pessoas privadas de liberdade de unidades prisionais do
município participam do treinamento, transmitido ao vivo pela internet. A
iniciativa oferece uma oportunidade de reflexão sobre escolhas,
responsabilidades, vínculos familiares e objetivos para o futuro, aspectos que
podem fazer a diferença no retorno à sociedade.
Uma
oportunidade de transformação
Para
a juíza Sabrina Andrade Galdino Rodrigues, o Método CIS permite que os
participantes reflitam sobre a própria trajetória e compreendam como suas
decisões influenciam os rumos da vida. “O método trabalha com
autorresponsabilidade, conscientização, disciplina, assuntos como perdão e
família. É um treinamento que aborda diversas áreas da vida. A iniciativa busca
fazer com que cada um compreenda que está ali em razão das atitudes que teve no
passado”, explica.
A
magistrada destaca que muitas pessoas envolvidas com a criminalidade cresceram
em ambientes marcados por vulnerabilidade social, abandono, conflitos
familiares e uso de drogas. Nesse contexto, o acesso a novas perspectivas pode
ajudar a romper padrões de comportamento e ampliar as possibilidades para o
futuro.
“É
algo extremamente relevante e contribui muito para que essas pessoas possam
enxergar outro caminho para seguir quando saírem da unidade prisional. Quando
apresentamos um outro olhar sobre a vida e mostramos que ela também é resultado
das nossas escolhas, isso provoca reflexão para que, quem sabe, façam escolhas
diferentes”, afirma.
O
treinamento também trabalha o desenvolvimento de sonhos, o perdão, a
reconciliação e o estabelecimento de metas. A proposta é estimular os
participantes a reconhecerem que a mudança de trajetória exige reflexão e
atitudes concretas.
“Foi
transformador para mim”
O
impacto da experiência aparece no depoimento de um dos participantes,
identificado pelas iniciais M.N.M.F., que cumpre pena na Penitenciária Mata
Grande. Em mensagem encaminhada à juíza, ele relatou que, antes de participar
do treinamento, estava sem objetivos e expectativas.
“Quando
eu pude participar desse método, foi transformador. Foi uma coisa muito
renovadora para mim como pessoa e como privado de liberdade, porque quero fazer
a diferença. Quero saber que a ressocialização existe e é capaz, sim, de mudar
vidas e de transformar”, declarou.
O
participante também lamentou não ter conseguido acompanhar toda a programação,
que se estendia até a madrugada, devido às limitações de acesso durante o
treinamento na unidade prisional. Mesmo com o tempo reduzido, ele afirmou que o
conteúdo recebido provocou mudanças na maneira de pensar e trouxe novos
aprendizados. “Foi muito transformador. A gente acabou recebendo o que foi
passado e temos que colocar em prática a partir de agora”, ressaltou.
A
expectativa, segundo ele, é que os aprendizados ultrapassem os muros da
penitenciária e alcancem também seus familiares e as pessoas próximas. O
depoimento evidencia uma das possibilidades proporcionadas pela iniciativa:
estimular a mudança individual e fortalecer a perspectiva de reconstrução dos
vínculos afetivos e sociais.
Novas
turmas e continuidade
A
gerente penal da Penitenciária Major PM Eldo Sá Corrêa, Kamila Dornelas
Trevizan, comentou que a unidade participou das edições realizadas em junho,
agosto e outubro. Segundo ela, os treinamentos são organizados em três dias,
com aproximadamente oito horas de atividades por dia. Cada turma reúne cerca de
30 participantes, em grupos diferentes.
Para
a gerente, o trabalho com inteligência emocional, autoconhecimento e
autorresponsabilidade pode contribuir significativamente para a
ressocialização. “Muitas dessas pessoas chegam ao sistema prisional com
histórias de vida difíceis, conflitos familiares e dificuldades para lidar com
suas emoções e decisões. Acreditamos que esse treinamento pode ajudá-las a
refletir sobre suas escolhas, reconhecer seus erros, controlar melhor suas
emoções e, principalmente, compreender que é possível construir uma história
diferente”, avalia.
Kamila
ressalta que o papel da gestão penitenciária vai além da segurança e do
cumprimento da pena. “Nossa responsabilidade é também proporcionar
oportunidades reais de transformação. E o Método CIS pode ser mais uma
ferramenta importante nesse processo”, afirma.
Acesso
gratuito ao treinamento
O
Método CIS foi criado por Paulo Vieira e é aplicado pela Febracis Coaching. A
formação trabalha diferentes dimensões da vida, como os aspectos emocional,
familiar, social, profissional e financeiro, com foco no desenvolvimento
pessoal e na mudança de comportamentos.
De
acordo com a juíza Sabrina, a participação ocorre por meio de acesso gratuito
disponibilizado pela Febracis a profissionais da segurança pública e pessoas
privadas de liberdade. As unidades recebem o link para acompanhar as
transmissões ao vivo, realizadas em diferentes cidades.
A
magistrada afirma que a intenção é manter a participação nas próximas edições
do treinamento. A continuidade da iniciativa pode ampliar as oportunidades de
reflexão e aprendizado, reforçando que a ressocialização também depende de
ações que ajudem as pessoas privadas de liberdade a identificar alternativas à
criminalidade e a se preparar para uma nova etapa da vida.
Roberta Penha
Coordenadoria de Comunicação do TJMT
imprensa@tjmt.jus.br
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