Adolescentes em medida socioeducativa fazem título eleitoral em ação conjunta entre poderes
A ação ‘Registre-se! Eleitoral’
atendeu a 51 adolescentes em cumprimento de medida socioeducativa de internação
nos Centros de Atendimento Socioeducativo - CASE de Cuiabá, sendo 36 da unidade
masculina e 15 da feminina, com idades entre 15 e 18 anos, na manhã desta
terça-feira (17). Na oportunidade, os jovens receberam seu primeiro título
eleitoral e também participaram de uma atividade educativa sobre o direito ao
voto, receberam cartilhas informativas e realizaram a simulação do uso da urna
eletrônica.
A iniciativa do Conselho Nacional de
Justiça (CNJ), com o Programa Fazendo Justiça, é realizada em parceria entre o
Poder Judiciário de Mato Grosso, por meio do Grupo de Monitoramento e
Fiscalização do Sistema Carcerário e Socioeducativo (GMF-MT), o Tribunal
Regional Eleitoral (TRE-MT) e Secretaria de Estado de Justiça (Sejus-MT), por
intermédio da Secretaria Adjunta do Sistema
Socioeducativo, da Superintendência do Sistema Socioeducativo e da
Coordenadoria de Atendimento Socioeducativo.
Vivian Murbach Coutinho, assistente
técnica de documentação e identificação civil do Programa Fazendo Justiça,
explica que o objetivo do projeto ‘Registre-se! Eleitoral’ no sistema socioeducativo
é proporcionar a emissão dos títulos de eleitor para que os jovens possam
exercer o direito ao voto nas eleições que ocorrerão em outubro deste ano.
“É uma conjugação de esforços do Tribunal
de Justiça, que garante os direitos dessas pessoas, do TRE, que faz a emissão
dos documentos e garante que eles possam exercer o voto, e da Secretaria de
Justiça, por meio da Secretaria Adjunta do Socioeducativo, para que possamos
ter acesso às unidades e também instalar a seção eleitoral aqui dentro”,
explicou, destacando que para que possa ocorrer a eleição dentro da unidade, é
preciso ter ao menos 20 eleitores aptos, entre internos e servidores.
O interno E.V.S.S.,18, conta que tem
interesse em participar das eleições. “Eu acho importante porque, assim, a
gente pode decidir quem vai fazer uma melhora pro nosso país, pro nosso
estado”. Ele considera a ação importante para se informar sobre seus direitos
políticos. “Descobri hoje que, mesmo estando internado, também posso ter o
direito do voto e achei muito importante. Só tenho a agradecer porque, às
vezes, lá fora, eu não iria fazer porque achava que não tinha direito por conta
de ter algum crime nas costas. E do jeito que fizeram aqui, foi muito bom”,
avalia.
A adolescente B.S.M., 17, relata que
não sabia que menor de idade pode ter o titulo de eleitor e votar. “Eu achei
muito importante pra gente ter essa escolha, ir aprendendo. É uma coisa nova
pra mim - e acredito que seja para todas as meninas aqui - que aqui dentro a
gente poderia ter esse acesso a fazer o título. Foi muito importante porque a gente
podendo escolher quem vai estar à frente, talvez seja uma escolha melhor pra
gente, a gente pode saber mais o que está se passando, eu acho isso bem legal”
disse.
Outro participante da ação que tirou
seu primeiro título eleitoral foi R.S.M., 18. “Foi ótimo porque, quando eu
estava lá ‘na rua’, eu não tirei. Agora que estou aqui cumprindo uma
internação, eles virem aqui para tirar o título é ótimo pra mim. Eu achava que
só ‘na rua’ que podia fazer isso. Mas aqui dentro agora vi que tem como e é
ótimo pra gente votar. Eles explicaram na palestra como participar da votação.
Isso é muito importante”.
De acordo com a juíza Leilamar
Rodrigues, titular da 2º Vara Especializada da Infância e Juventude de Cuiabá e
coordenadora do Eixo Socioeducativo do GMF-MT, a experiência de emitir o título
de eleitor e receber orientações sobre os direitos políticos constitui, para os
jovens em cumprimento de medida socioeducativa, importante exercício de
cidadania. “Trata-se de um direito de todos e, para os adolescentes, é de suma
importância que compreendam a relevância do voto, bem como a responsabilidade
de escolher em quem votar”, afirma.
A magistrada destaca ainda que ações
como essa integram o próprio processo socioeducativo, ao promoverem a
aproximação dos adolescentes com o exercício da cidadania. Segundo ela, “a
vivência contribui para que, no retorno ao convívio social, esses adolescentes
e jovens estejam mais conscientes de seus direitos e deveres”.
O corregedor regional eleitoral em substituição, desembargador Lídio Modesto da Silva
Filho, classifica o projeto ‘Registre-se! Eleitoral’ como de suma importância
para a inclusão dos jovens em medida socioeducativa. “O Brasil passa por um
momento sensível, em que se revela a necessidade de uma reflexão a respeito de
quem será escolhido para governar o país. E não é porque estamos numa
instituição como essa que vamos deixá-los alijados do processo de escolha.
Então, há necessidade de explicar o que é cidadania, há necessidade da
participação deles no processo de escolha. Então essa conscientização é muito
salutar e temos que inseri-los no contexto”.
Conforme o representante da Justiça
Eleitoral, o projeto contribui para o combate ao sub-registro de eleitores e
para a conscientização a respeito do processo democrático, especialmente da
parcela jovem da população. “Os jovens entre 16 e 18 anos têm a faculdade de
participar do processo democrático, mas como eles são em número crescente no
país, nós estamos fazendo esses projetos de inseri-los no contexto de escolha”,
pontua o desembargador.
Para Lenice Barbosa, secretária
adjunta do Sistema Socioeducativo de Mato Grosso, o trabalho com esse público
precisa ocorrer de forma transversal e integrada entre todas as instituições
envolvidas. “Quando se fala em cumprimento de medida e de atenção a esses
adolescentes, todos unem forças, todos são muito ativos porque temos que
trabalhar com esses jovens para que eles não retornem ao mundo do crime”,
destaca.
A secretária ressalta ainda que ao
terem seus direitos respeitados, os adolescentes em medida socioeducativa
passam a se enxergar como parte integrante da sociedade. “Quando o Tribunal
traz uma ação como essa aqui pra dentro do sistema socioeducativo, também é um
processo de inserção porque, às vezes, lá fora, até cooptados pelas facções,
eles sequer se lembram de ter um documento, um registro civil, não se alistam e
também não fazem título de eleitor. Então, essa ação é uma forma da gente
trabalhar ainda mais os direitos que eles têm, as perspectivas de vida que eles
podem ter lá fora e, principalmente, que eles são cidadãos e que a vida não se
resume aos atos infracionais que eles cometeram”, defende.
Celly Silva / Foto: Lucas Figueiredo
Coordenadoria de Comunicação do TJMT
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