Exposição no Fórum de Cuiabá revela, pelos traços de crianças, a dor da violência doméstica
“Eu tinha cinco anos. A casa da minha avó, em Juiz
de Fora, Minas Gerais, era um sobrado. A tia que eu mais amava, irmã do meu
pai, era muito loira, de olhos azuis, pois nossa família é descendente de
alemães. Eu vi o marido dela, meu tio, bater nela e empurrá-la escada abaixo.
Era uma escada linda, de mármore, com dois lances. Eu assisti quando ele a
empurrou e ela rolou até lá embaixo. Quando ela conseguiu se levantar, não eram
apenas os olhos dela que estavam azuis. O corpo inteiro estava azul, machucado.
Tenho hoje 74 anos, quase 75, e nunca esqueci aquele momento. Eu não queria
mais ir à casa da minha avó, porque não queria lembrar que a tia que eu mais
amava tinha sido vítima daquela agressão. Se eu tivesse sido chamada para
desenhar naquela época, provavelmente faria um desenho semelhante a um que vi
nesta exposição: o de uma criança que mostra uma faixa escondendo feridas e
escoriações de uma vítima. A criança às vezes não consegue falar, mas fala por
meio do desenho”.
O relato emocionado da desembargadora Maria
Erotides Kneip marcou a abertura da exposição “Desenhos que Falam: percepções sobre a violência doméstica”, que
ficará em exibição no Fórum de Cuiabá de 9 a 31 de março. A mostra reúne
ilustrações produzidas por estudantes do 5º ao 9º ano da rede estadual de
ensino e integra as ações realizadas durante o mês em que se comemora o Dia
Internacional da Mulher.
Organizada pela Defensoria Pública de Mato Grosso
(DPEMT), por meio do Núcleo de Defesa da Mulher (Nudem), a exposição chega ao
Fórum da Capital numa parceria com o Poder Judiciário de Mato Grosso. O
objetivo é provocar reflexão sobre a violência contra as mulheres e reforçar a
importância de discutir o tema dentro e fora das escolas.
Segundo a desembargadora Maria Erotides,
coordenadora da Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência
Doméstica e Familiar (Cemulher-MT), os desenhos revelam sentimentos que muitas
vezes as crianças não conseguem expressar em palavras. “As crianças são capazes
de reproduzir os seus sentimentos nos desenhos. Elas falam através deles.
Principalmente aquelas que vivenciam a violência contra as mães, contra as tias
ou contra pessoas que elas amam”, afirmou.
Ela destacou que muitas das ilustrações mostram
experiências vividas de perto pelos estudantes. “Quando as pessoas veem os
desenhos, elas se impressionam. Pensam: ‘Meu Deus, essa violência é capaz de
provocar uma dor tão grande a ponto de a criança expressar isso dessa forma?’.”
Educação como ferramenta de
prevenção
A exposição nasceu a partir de visitas realizadas
por defensoras públicas em escolas estaduais de Cuiabá durante atividades da
campanha Agosto Lilás, voltada
ao enfrentamento da violência doméstica.
Durante palestras e rodas de conversa com
estudantes, os alunos foram convidados a expressar, por meio de desenhos, como
percebem a violência contra a mulher. O resultado foi um conjunto de imagens
fortes, que retratam agressões físicas, sofrimento emocional e o impacto da
violência dentro das famílias.
Para a defensora pública-geral do Estado, Luziane
Castro, o material produzido pelos estudantes mostra como a violência doméstica
afeta não apenas as mulheres, mas também crianças e adolescentes. “Essa
exposição nasceu de um projeto que realizamos nas escolas públicas. Durante as
visitas, os alunos produziram desenhos que mostram como percebem a violência
contra a mulher. A partir deles, conseguimos entender o quanto essa violência
atinge toda a família”, afirmou.
Segundo ela, o impacto das imagens ajuda a
despertar a consciência da sociedade. “Queremos que as pessoas se choquem, que
se indignem. A indignação é o primeiro passo para que possamos mudar essa
realidade”.
Desenhos que pedem socorro
A juíza diretora do Foro da Comarca de Cuiabá,
Hanae Yamamura, explicou que a exposição foi trazida para o Fórum após
indicação da juíza Ana Graziela Vaz de Campos, titular da 1ª Vara Especializada
de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher.
De acordo com a magistrada, o espaço foi escolhido
justamente pela grande circulação de pessoas. “O Fórum de Cuiabá é a maior casa
do Poder Judiciário no estado. Aqui trabalham cerca de 1.500 servidores e
circulam aproximadamente oito mil pessoas por mês. É um local importante para
sensibilizar a sociedade”, destacou.
Para a juíza, os desenhos representam um alerta
sobre o impacto da violência no ambiente familiar. “Esses desenhos estão
gritando. Eles mostram que a violência não atinge apenas a mulher, mas também
toda a família, principalmente as crianças”.
O desafio de enfrentar a
violência
Durante a abertura da exposição, a juíza Ana
Graziela Vaz de Campos lembrou que Mato Grosso registra números preocupantes
relacionados à violência contra a mulher.
Segundo ela, o estado ocupou o primeiro lugar no
ranking nacional de feminicídios em 2023 e 2024, e ficou em terceiro lugar em
2025.
Diante desse cenário, a magistrada reforçou que
iniciativas nas escolas são fundamentais para mudar essa realidade. “Quando
levamos esse debate para os bancos escolares, estamos desenvolvendo uma
política pública de prevenção antes mesmo que o crime aconteça”.
Para as instituições envolvidas, “ouvir” o que as
crianças expressam nos desenhos é um passo importante para quebrar ciclos de
violência e construir uma sociedade mais consciente.
“Quando passarmos por este corredor, precisamos
ouvir o que essas crianças estão dizendo nos desenhos”, concluiu a
desembargadora Maria Erotides. “Elas estão pedindo socorro. E nós precisamos
agir para que esse grito não seja ignorado”.
Roberta Penha / Foto: Alair Ribeiro
Coordenadoria de Comunicação do TJMT
imprensa@tjmt.jus.br
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