Saúde Pública e enunciados para condução judicial são tratados por juiz e promotor em seminário
Durante
o Seminário “Os desafios e
perspectivas da judicialização em saúde”, que integra a programação do 14º Fonajus
Itinerante, o painel sobre Saúde Pública contou com
palestras do juiz auxiliar da Presidência,
secretário-geral do TJMT e titular da 1ª Vara Especializada da Fazenda Pública
(Vara da Saúde), Agamenon Alcântara Moreno Junior, e do coordenador do
Centro de Apoio Operacional da Saúde do Ministério Público Estadual, promotor
de justiça Milton Mattos da Silveira Neto, na manhã
desta sexta-feira (20). O evento foi transmitido ao vivo e pode ser conferido
no canal
TJMT Eventos, no YouTube.
Em sua palestra, o juiz Agamenon Alcântara abordou a judicialização
da saúde em Mato Grosso em relação aos aspectos da evidência científica, da
prova, dos custos e da governança. Ele destacou que os magistrados contam com
os enunciados do Fonajus para embasar suas decisões, explicando alguns deles,
como os enunciados 18 (evidência científica), 120 (documentação), 112 (custo) e
113 (vulnerabilidade). “A discussão desses enunciados é ampla, envolvendo não
só a magistratura, mas o Ministério Público, a Defensoria Pública, representantes
de planos de saúde, Estado. Então, a discussão é muito rica e esses enunciados dão
as diretrizes quando a inicial é distribuída e, a partir daí as ferramentas e
como nós devemos proceder”, resumiu.
Em relação ao enunciado 18, o juiz Agamenon destacou que as
decisões liminares sobre saúde devem ser precedidas de notas de evidência
científica, emitidas pelos Núcleos de Apoio Técnico do Judiciário (NatJus), ou
consulta a banco de dados pertinente e que isso é obrigatório nas hipóteses
definidas nas Súmulas Vinculantes 60 e 61 do Supremo Tribunal Federal (STF).
Ao abordar o impacto financeiro da judicialização da saúde, o
magistrado pontuou que, apesar de não figurar entre os primeiros assuntos dos
processos judiciais (consultas, cirurgias e leitos de UTI), os pedidos por medicamentos de
alto custo representam o maior volume. “Em 2025, R$ 25 milhões foram
decorrentes de ações judiciais oriundas da Vara da Saúde ou do Cejusc da
Saúde”, informou.
Alcântara chamou a
atenção ainda para o enunciado 120 do Fonajus, que preconiza que quando a
manifestação do NatJus ou do perito judicial for inconclusiva, por ausência de
documentação médica indispensável ou por indefinição das condições clínicas do
paciente, há necessidade de intimar a parte autora para complementar a
documentação, além de recomendar que, na falta dessa apresentação de provas, o
processo seja arquivado sem resolução do mérito. “Essa recomendação é
fundamental para o fim, que é a situação da evidência científica porque, sem
isso, não há possibilidade de ter uma análise de forma correta”, afirmou,
pontuando o risco de anulação da decisão judicial, na fase de recurso.
Em
sua palestra, o promotor de justiça Milton Mattos da Silveira Neto destacou a
importância dos operadores do Direito que lidam com demandas da saúde
primeiramente entenderem como funciona a saúde pública. “A gente precisa
entender o funcionamento do Sistema Único de Saúde, os problemas do SUS, os
seus desafios, para poder entender porque que há tanta judicialização. As
pessoas judicializam a saúde porque não conseguiram acesso ao serviço público
e, aí, há necessidade da intervenção do Poder Judiciário”, disse.
Conforme
o promotor de justiça, o principal desafio da saúde pública, atualmente, é o
financiamento do SUS. “Hoje, o que se gasta com saúde pública do Brasil é muito
aquém do que realmente seria necessário. Mas, para que isso aconteça e haja um
investimento maciço em saúde, primeiro tem que remodelar o financiamento do SUS
em nível federativo, porque os municípios estão estrangulados. O mínimo
constitucional é de 15%, mas, em Mato Grosso todos já investem acima de 20% da
sua receita. O Estado de Mato Grosso tem investido 14%. Mas o governo federal
vem desfinanciando a saúde”, apontou.
De
acordo com Milton Mattos, há necessidade do Ministério da Saúde revisar a
tabela SUS, que dá base a todo pagamento de procedimentos realizados. “Os
cofinanciamentos que ele faz ainda são muito poucos e, com isso, sobra muito
nas costas dos municípios, que não conseguem arcar”, explicou.
O
painel de Saúde Pública foi presidido pela desembargadora Vandymara Galvão Ramos Paiva Zanolo, que atua
na Terceira Câmara de Direito Público e Coletivo. Ela relatou que diariamente
aportam nos gabinetes inúmeros pedidos de medicamentos, tratamentos e
internações. “Então, é um tema extremamente relevante”, comentou.
Celly Silva / Foto: Josi Dias
Coordenadoria de Comunicação do TJMT
imprensa@tjmt.jus.br
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