Formação em Direito Ambiental reforça necessidade de decisões mais técnicas e sustentáveis
“O Poder Judiciário está no
centro dos debates das agendas ambiental e climática e Mato Grosso, com seus
três biomas e uma importante economia agrária, pode estar no centro desse
centro. O grande desafio está em encontrar o equilíbrio entre desenvolvimento
econômico, proteção ambiental e justiça social, uma vez que essas dimensões são
interdependentes e essenciais para garantir qualidade de vida e viabilidade
econômica no longo prazo”. A afirmação do jurista Tiago Fensterseifer sintetiza
o tom do segundo dia do curso “Introdução ao Direito Ambiental – no Limiar de
um Novo Paradigma Jurídico Ecocêntrico no Antropoceno”, realizado pela Escola
Superior da Magistratura de Mato Grosso (Esmagis-MT), em parceria com o Centro
de Estudos Integrados em Meio Ambiente (Cesima).
A programação desta etapa
aprofundou temas estruturantes do Direito Ambiental, com foco nos princípios
jurídicos, no regime constitucional de proteção ecológica e na responsabilidade
civil ambiental e climática. A proposta, apresentada pelos juristas Ingo
Wolfgang Sarlet e Tiago Fensterseifer, foi conectar fundamentos teóricos às
implicações práticas enfrentadas diariamente pelo Poder Judiciário.
Durante sua exposição,
Fensterseifer destacou que o princípio da sustentabilidade orienta a
integração, considerando que os eixos desenvolvimento econômico, proteção
ambiental e justiça social são interdependentes. “Não adianta degradar o meio
ambiente além de determinados limites, porque isso compromete não só a
qualidade de vida das pessoas, mas também a própria viabilidade da atividade
econômica no médio e longo prazos”, explicou.
O professor também ressaltou a
importância dos chamados serviços ecossistêmicos, como a regulação hídrica, a
qualidade do solo e a polinização, essenciais para atividades como a
agricultura e a pecuária. “Hoje começamos a identificar o valor econômico
desses serviços, algo que no passado não era devidamente considerado”, pontuou.
Já o jurista Ingo Wolfgang Sarlet
enfatizou o papel da Constituição Federal de 1988, considerada uma das mais
avançadas do mundo em termos de proteção ambiental. Ele destacou que o direito
ao meio ambiente equilibrado é um direito fundamental, o que impõe ao Estado e
à sociedade o dever de preservá-lo para as presentes e futuras gerações. Nesse
contexto, foram abordadas decisões relevantes dos tribunais superiores,
especialmente no campo da responsabilidade civil por danos ambientais.
Outro ponto de destaque do segundo
dia do curso foi a análise dos princípios do Direito Ambiental, como os da
precaução, da prevenção, do in dubio pro
natura e da vedação ao retrocesso ambiental. Esses fundamentos, conforme
explicado por Fensterseifer, orientam a interpretação e aplicação das normas
jurídicas em todas as esferas, desde o plano constitucional até casos
concretos.
“O Direito Ambiental precisa ser
compreendido dentro de um modelo de Estado Constitucional que já incorporou a
dimensão ecológica como elemento estruturante. A Constituição de 1988
representa esse marco ao reconhecer o meio ambiente equilibrado como um direito
fundamental, o que impõe deveres não apenas ao Estado, mas a toda a sociedade. A
partir disto, evoluímos de uma visão estritamente antropocêntrica para uma
perspectiva mais ecológica, ainda que moderada, que exige uma interpretação
jurídica comprometida com a proteção ambiental”, explicou.
A relevância do curso também foi
ressaltada por magistrados participantes. O juiz Anderson Fernandes Vieira,
titular da 3ª Vara de Mirassol d’Oeste, destacou a importância da capacitação
diante da realidade local.
“Nosso estado possui forte
atividade agropecuária e grande diversidade ambiental, o que exige cada vez
mais especialização. Esse curso vem justamente para aprimorar nossa atuação e
qualificar as decisões judiciais diante de demandas ambientais cada vez mais
complexas”, afirmou.
Formadores de destaque
Ingo Wolfgang Sarlet é doutor em
Direito pela Ludwig-Maximilians-Universität München (1997), professor titular
da Escola de Direito da PUC-RS e coordena o Programa de Pós-Graduação em
Direito da instituição desde 2006. Lidera grupos de pesquisa certificados pelo
CNPq e possui extensa formação internacional, com pós-doutorados realizados na
Universidade de Munique, no Instituto Max-Planck de Direito Social, Estrangeiro
e Internacional e no Georgetown Law Center. Sua atuação acadêmica concentra-se
em direitos fundamentais, dignidade da pessoa humana, direitos sociais e
ambientais e desafios jurídicos da sociedade tecnológica.
Tiago Fensterseifer é defensor público (SP), doutor e mestre em Direito Público pela PUC-RS, com pesquisas realizadas no Instituto Max-Planck de Direito Social e Política Social. Possui pós-doutorado pela UFSC e pelo próprio Max-Planck. É autor de obras de referência em direitos fundamentais, proteção ambiental e atuação da Defensoria Pública. Atua como professor visitante em programas de pós-graduação e coordena especializações em Direito Constitucional, Direito Ambiental e Direitos Difusos e Coletivos.
A responsável pela capacitação, juíza Henriqueta Chaves de Alencar Ferreira Lima estava presente.
Leia também:
Curso reúne especialistas para discutir avanço das demandas ambientais no Judiciário
Ana Assumpção / Foto: Alair Ribeiro
Coordenadoria de Comunicação do TJMT
imprensa@tjmt.jus.br
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