Ribeirinho Cidadão faz atendimentos em Poconé
Quando soube que o projeto Ribeirinho Cidadão iria realizar o último dia de atendimentos da parte fluvial no município de Poconé, Agda de Moraes Costa, 27 anos, correu para conseguir um carona de barco para vir até a cidade. Afinal, da aldeia indígena aonde mora até Poconé são mais de 10 horas de viagem pelas curvas do rio Cuiabá.
Mãe de seis crianças e grávida da sétima, Agda pertence à tribo Guató e precisava tirar a documentação dos filhos com urgência para que eles pudessem se matricular na escola. “Eu peguei carona de manhã e cheguei às 15h. Pra quem mora lá é muito difícil, pois a gasolina é muito cara e nem tudo conseguimos fazer em Poconé. Sem falar que aqui é tudo de graça. Se eu tivesse que pagar para fazer todos os documentos eu tava encrencada. Eu mal ganho pra sobreviver. Agora que as crianças estão maiores, vou colocá-las na escolinha em Poconé e pra isso preciso do documento. Além disso, quando elas vão fazer exames, também pedem os documentos. Eu agradeço demais ao pessoal do Projeto. Tô sendo muito bem tratada. Muito obrigada pela ajuda”, relata a ribeirinha.
Outro caso que marcou a passagem do projeto pela cidade foi o dos irmãos Adiles e Abnoel Quirino da Cunha. Artesã de 57 anos, Adiles trouxe o irmão Abnoel para ser medicado pela segunda vez no projeto. “No ano passado o Abnoel descobriu através do projeto que tinha glaucoma. O Dr. Jesus o encaminhou para cirurgia em Cuiabá, mas infelizmente a vista esquerda não pôde ser recuperada e ele perdeu a visão deste olho. Esse ano, ele veio novamente refazer os exames e foi encaminhado para uma nova cirurgia. Se não fosse o projeto, ele nunca ia descobrir”, afirma.Além de refazer os exames oftalmológicos, Abnoel se consultou com o médico voluntário do Ribeirinho Cidadão IX, o secretário adjunto da Secretaria Estadual de Saúde, Werley Peres, que o orientou a fazer uma dieta balanceada para controlar uma aparente hipertensão.
A artesã Adiles conta ainda que através do projeto refez toda sua documentação e do filho, casou-se e também passou por consulta médica. “A atenção que vocês dão pra gente é muito importante. A gente se sente muito valorizado. Não sei o que seria de mim e do meu irmão sem o projeto, pois fica muito caro pra ir a Cuiabá. Contamos os minutos para que o Ribeirinho volte de novo”, desabafa.
O domador de cavalos Isaías Gonçalves Santos de Amorim, de 32 anos, emocionou a analista tributária da Receita Federal Denise Castrillon. Ao perguntar sua idade para confeccionar o CPF do ribeirinho, o rapaz disse com timidez que sabia de cor o ano de seu nascimento, mas que ‘tinha preguiça’ de contar os anos. “Logo vi que ele não sabia contar e respondi que também tinha preguiça em fazer contas e peguei a calculadora para descobrir a idade dele. Aquilo me cortou o coração. As pessoas aqui são muito carentes e nessa hora a gente tem certeza de quão imprescindível o projeto se torna”, diz.
Isaías estudou apenas até a quarta-série, é casado e sua esposa está grávida. O CPF serviu para confeccionar, logo em seguida, a carteira de trabalho, que o chefe exigiu para que ele mantivesse o emprego.
Para que o atendimento no município de Poconé fosse possível, o projeto contou com diversos parceiros, entre eles o Sesc Pantanal. A instituição cedeu recursos e liberou o salão do Centro de Atividades de Poconé para os atendimentos.
“A parceria se deu através do Dr. Toni, que já foi juiz da cidade. Ele nos perguntou se nós gostaríamos de fazer parte desta parceria e aceitamos na hora. É um grande prazer para o Sesc, pois ações como esta são atividades que o Sesc já faz e vem ao encontro do nosso objetivo maior, que é melhorar a qualidade de vida das pessoas. E o Ribeirinho Cidadão calhou com o que a gente faz e não poderíamos nunca ficar de fora”, destaca o gerente do Centro de Atividades de Poconé ligado ao Sesc Pantanal, Marcus Vinícius do Carmo Silva.Marcus destaca ainda a importância do trabalho em conjunto. “Hoje em dia ninguém faz nada só. A gente sempre procurar trabalhar com parceiros. E trabalhar com instituições sérias como o Poder Judiciário, Defensoria Pública, Governo Estadual, entre outros, é muito legal, porque a gente sabe que vai ter um respaldo e a população acredita. Sem falar na satisfação de fazer parte desta parceria, pois nos permite atender pessoas que não têm acesso a nada. Enquanto existir o projeto, o Sesc vai estar sempre participando e ajudando para que essas ações sempre aconteçam”, pontua.
Para o juiz e coordenador do Ribeirinho Cidadão, José Antonio Bezerra Filho, “o crescimento do projeto e da gama de serviços se deu graças à participação de parceiros como o Sesc. Hoje acredito que estamos conseguindo atender aos anseios da população de uma forma mais efetiva e profissional. Por isso, agradecemos imensamente aos parceiros e líderes das iniciativas públicas que viabilizam que o Ribeirinho Cidadão chegue a lugares tão remotos e leve cidadania a tantas pessoas”, diz o magistrado.
O Projeto Ribeirinho Cidadão, desenvolvido pela Defensoria Pública do Estado, em parceria com o Tribunal de Justiça, apoio do governo do Estado e diversas instituições, é dividido em duas etapas, fluvial e terrestre. A fluvial aconteceu entre os dias 12 e 21 de fevereiro e a terrestre será realizada entre 23 e 29 de fevereiro. Ao todo, 46 comunidades ribeirinhas serão atendidas.
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Mariana Vianna/Fotos: Chico Valdiner (Gecom-MT)
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