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 25/02/2016   08:42 

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Um século de vida no meio do Pantanal

Quem vê as mãos ágeis tocando a desgastada viola de coxo, a memória que não esquece as letras das músicas, a gargalhada gostosa e a saúde de ferro, não imagina que seu Joaquim Santana Rodrigues, pantaneiro nascido e criado na Comunidade de São Pedro de Joselândia, tem um século de vida. Mas tem.
 
A saúde do pantaneiro causa espanto até mesmo ao médico Werley Peres, secretário-adjunto de Saúde do Estado que acompanhou o Projeto Ribeirinho Cidadão este ano. Como o acesso à casa do seu Joaquim é complicado, devido à cheia do Pantanal, o médico atendeu o centenário morador em casa, local onde ele reside há mais de 60 anos.
 
Após aferir a pressão, verificar os batimentos cardíacos, o médico, com voz de espanto, diz: “o que é isso seu Joaquim? Esse coração é de menino. Não tem uma arritmia sequer. Qual é o segredo?”.
 
Em resposta à pergunta o que médico escuta é uma maravilhosa gargalhada, sob o olhar atento dos filhos, que sempre ficam preocupados com a saúde de seu Joaquim e da sua esposa, dona Tarsila, que tem seus também invejáveis 90 anos.
 
Sentado na varanda de sua casa, tendo como paisagem a água dos corixos, o gado no pasto e os pássaros no quintal, seu Joaquim diz que o segredo é ser feliz e amar a Deus. A consulta continua e o médico mais uma vez pergunta: “Quais remédios o senhor toma?”.
 
Outra resposta bombástica: “Nenhum”. A equipe do Ribeirinho que acompanha a consulta fica em silêncio e lá vem outra pergunta. “Como assim seu Joaquim? Nada? Como isto é possível?”. Outra vez ele sorri e diz: “Não sei”.
 
O tempo de “prosa” com seu Joaquim é extremamente prazeroso. As histórias e causos que tem para contar são inúmeros. O interessante é que em meio a tantas lembranças seu Joaquim nunca menciona momentos tristes, fala com alegria e com paixão de tudo o que viveu.
 
Tem orgulho dos 11 filhos que criou, dos 40 netos e mais de 40 bisnetos que tem. “São minha alegria. Criei todos trabalhando na roça. A vida aqui é muito boa. Temos paz, amigos e a família por perto. O que mais eu preciso?”.
 
A única coisa que reclama é que agora está enxergando menos, mas ainda consegue ver muito bem as cordas da viola que ele tem há mais de 40 anos. Com um brilho no olhar ele conta que sente saudades das centenas de baile que tocou. “Tempo bom aquele”.
 
Quando começa a se recordar deste período uma das filhas, Lúcia, fala: “pegue a viola, pai, toca para eles verem”. É questão de minutos para o pantaneiro estar com a viola nas mãos. Começa a dedilhar e a tocar um belo e autêntico rasqueado. Como o estilo de música faz parte da cultura local e está arraigado na alma do ribeirinho, não precisa muito tempo para que as filhas de seu Joaquim se levantem e comecem a dançar, pois foi neste cenário simples e feliz que elas cresceram. Impossível não aplaudir um espetáculo cultural como este.
 
Seu Joaquim é daquelas raras e brilhantes pessoas que poucos têm o prazer de conhecer na vida. É o morador mais idoso e mais conhecido na comunidade. Sua casa é sempre muito visitada. Católico fervoroso, ele mantém a cultura ribeirinha de benzer as pessoas, algo que é valorizado e respeitado entre os locais. Antes de todos saírem, faz questão de abraçar um por um, agradecer e dizer: “Voltem sempre. Deus acompanhe e abençoe vocês”. Até a próxima, seu Joaquim!
 
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Janã Pinheiro/Fotos: Chico Valdiner/Gecom-MT
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