Especialista alerta para avanço do ódio contra mulheres e destaca papel das redes de proteção

O II Encontro das Redes de Enfrentamento à Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, promovido pela Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar (Cemulher-MT), dedicou seu 4º painel ao tema “As Redes de Enfrentamento à Violência contra a Mulher: missão e compromisso”. A palestra foi conduzida pela Prof.ª Dr.ª Alice Bianchini, doutora em Direito pela PUC-SP, referência nacional na pauta e conselheira de notório saber do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher.
Segundo a professora, o país começa apenas agora, “de
forma muito lenta e já com atraso”, a consolidar redes que garantam acolhimento
efetivo. Para ela, o trabalho integrado é indispensável. “A gente não pode
pensar nessa mulher só no aspecto penal. Ela quer também reconstruir a sua
vida, a sua própria existência. Esses serviços são prestados pelas redes e são
muito importantes para que essa mulher se sinta fortalecida e possa realmente
sair da esfera da violência”, alertou.
Alice destacou ainda que a insegurança quanto ao
bem-estar dos filhos é um dos fatores que impulsiona o retorno de vítimas ao
ciclo violento. “Por uma série de questões identificadas hoje, a principal
preocupação é com os filhos. Ela acaba voltando para a cena da violência e isso
faz com que seja uma vítima muito certa de feminicídio”, alertou.
Ao comentar fatores socioeconômicos relacionados à
desigualdade de gênero, a palestrante reforçou que a independência financeira e
o acesso ao trabalho são pilares fundamentais. “Todas as pesquisas no mundo
inteiro vão dizer que quanto mais desigualdade de gênero, mais violência de
gênero. No Brasil, que detém um dos índices mais altos, nós também temos muita
desigualdade”.
Ela lembrou que mulheres recebem, em média, 24% a menos
do que homens realizando as mesmas funções, e convivem com barreiras adicionais
devido à dupla ou tripla jornada. “Essa perspectiva da igualdade é a mais
importante que a gente tem que trabalhar”, completou.
Ao comentar o avanço das redes de enfrentamento, ação consolidada
pelo TJMT em Mato Grosso - que chegará a
cem redes instaladas neste final de ano -, a professor elogiou o esforço, mas
ponderou sobre a necessidade de fortalecimento estrutural.
“A gente precisa das duas coisas: quantidade e
qualidade”, assinalou. Para ela, essa expansão pode ser um “gatilho para
diminuir a violência contra a mulher no Brasil”, desde que acompanhada de
atuação nas frentes de prevenção primária, secundária e de reparação.
“O que a gente tem observado é como está crescendo o ódio
contra as mulheres. Existe a violência que leva à morte dessa mulher, mas
existe também um ódio sendo perpetrado”, denunciou.
Ela explicou que parte desse fenômeno decorre da busca
feminina por igualdade e autonomia. “As mulheres não querem mais do que os homens,
querem igualdade. Isso cria maior empoderamento, entendido como a capacidade de
gerir a própria vida. Para um setor pequeno, mas muito violento, isso causa
incômodo, uma certa ojeriza, e aí vêm esses extremos de violência”.
O II Encontro das Redes de Enfrentamento reuniu profissionais que atuam diariamente na proteção de mulheres em situação de violência, reforçando a necessidade de integração, qualidade nos serviços e compromisso permanente com a vida e a dignidade feminina.
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Patrícia Neves / Foto: Josi Dias
Coordenadoria de Comunicação Social do TJMT
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