Capacitação aprimora atuação de profissionais em Grupos Reflexivos para Homens
A violência doméstica e familiar
é um problema social enfrentado pelo Poder Judiciário por várias frentes. Em
Mato Grosso, o Tribunal de Justiça adota estratégias que combinam medidas de
proteção e apoio às vítimas com ações de reeducação dos homens autores de
agressão por meio dos grupos reflexivos. Nessa toada, desde segunda-feira (14
de julho), ocorre a "Capacitação para Facilitadores de Programas de
Reflexão e Sensibilização para Autores de Violência Doméstica e Familiar contra
a Mulher”, na Escola dos Servidores, em Cuiabá.
O evento é promovido pela
Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar
(Cemulher-MT) do TJMT para aprimorar os conhecimentos e técnicas do trabalho de
equipes multidisciplinares, psicólogos e assistentes sociais que atuam nos
grupos reflexivos.
Na tarde desta terça-feira (15),
a programação focou nos “depoimentos especiais”, no “preenchimento do
Formulário de Risco”, todas as fases da implementação, gestão e temas
pertinentes para os grupos reflexivos para homens autores de violência
doméstica, além de uma dinâmica com o estudo de casos reais.
De perto
A coordenadora da Cemulher-MT,
desembargadora Maria Erotides Kneip, fez questão de acompanhar a aula de perto.
"Achei uma capacitação extremamente prática, com todo o arcabouço teórico
que foi passado, esse trabalho de equipes com casos concretos, mostrando os
encaminhamentos e as soluções possíveis em cada um. Foi muito enriquecedor.
Essa troca de experiências foi maravilhosa", afirmou a desembargadora.
A presença da coordenadora no
período da tarde visava justamente observar a aplicação prática dos
conhecimentos. "Assim, eu posso saber a quantas anda a formação e a
organização de cada Grupo Reflexivo para Homens (GRH). Eu estou muito feliz com
o que eu vi", declarou Maria Erotides.
A desembargadora também agradeceu
aos profissionais pela “rica atuação de cada um em suas comarcas”, e aos
professores da capacitação, juiz Marcelo Melo e a advogada Dinara de Arruda
Oliveira, presidente da Academia Mato-grossense de Direito e membro da Comissão
da Mulher Advogada da OAB/MT. “Aonde iríamos achar escrito o que eles nos
disseram? Em qual livro? Porque se houver este livro, me digam que eu vou
procurar. Eles sabem porque vivem diuturnamente isso e essa troca foi
maravilhosa”, disse a desembargadora durante a entrega dos certificados.
O juiz Marcelo Souza Melo Bento
de Resende, da 2ª Vara Criminal de Barra do Garças, explicou que o ‘Depoimento
Especial’ é uma técnica fundamental para colher depoimentos de vítimas de
violência, especialmente crianças e adolescentes, de forma a protegê-las da
revitimização e garantir a fidelidade da informação.
“Falamos sobre pontos importantes
que o profissional deve observar, por exemplo, fazer o rapport (relacionamento)
com a criança, fazer escuta livre, evitar perguntas fechadas, fazer perguntas
abertas, que não se deve, obviamente, fazer indução de perguntas, e ao final,
após ser ouvido, fazer uma desensibilização. Aquela criança relembrou tantos
traumas daquela situação e ela precisa sair daquele momento de uma forma leve”,
detalhou ele, acrescentando que, se constatado que a vítima precisa de
encaminhamento para a rede de atendimento, o profissional o fará.
O magistrado elogiou o interesse
e a participação dos profissionais, que serão multiplicadores do conhecimento
em suas comarcas.
Participantes
Para Evandro Tavares Bueno,
analista judiciário e psicólogo efetivo da equipe multidisciplinar da Comarca
de Barra do Garças, a troca de experiências é fundamental para o aprimoramento
contínuo dos profissionais e das metodologias utilizadas. Com dez anos de
experiência em grupos reflexivos, Evandro explicou que o método atual difere de
abordagens anteriores baseadas apenas em palestras. “É um processo educacional,
de reflexão e responsabilização, onde o foco é o indivíduo repensar o ato e
ressignificar a violência para não reincidir”, disse.
O psicólogo acredita que a
atualização constante dos profissionais é essencial. "É um campo complexo,
e estamos sempre descobrindo novas nuances. É fundamental que o Tribunal de
Justiça promova essas capacitações, pois há muito material e conhecimento sendo
produzido para aprimorar o combate à violência contra a mulher."
A psicóloga Gislaine Eloísa
Gonçalves Acona, da Comarca de Tangará da Serra, destacou o caráter prático do
evento como um diferencial. "Realmente achei excelente, porque está muito
prático, tocando em aspectos do nosso dia a dia, e isso é extremamente
importante para nós", afirmou Gislaine. Ela enfatizou que a abordagem
clareou muitas dúvidas, especialmente em relação à metodologia dos grupos reflexivos.
Gislaine explicou que, em Tangará
da Serra, o grupo de homens é composto por cinco encontros, com a participação
de secretarias municipais, como Ação Social e Saúde. A psicóloga percebeu que,
para que haja uma real transformação e conscientização dos homens, é importante
que eles participem de forma efetiva, e não apenas de palestras. "Eu
percebo que, para que haja a transformação realmente da conscientização desses
homens, eles precisam participar efetivamente. Sabe aquele 'errado que está
dando certo', mas que a gente agora pretende fazer de outra forma algumas
coisas, conversar com a nossa juíza, que é uma pessoa extremamente aberta e
muito preocupada com essa questão", finalizou.
A assistente social da Comarca de
Juína, Karine Monteiro, classificou como ‘uma experiência ótima’ sua
participação na capacitação. Ela destacou a aplicabilidade prática do conteúdo
para seu dia a dia e a incorporação de novas ferramentas de trabalho. Ela
enfatizou a necessidade de "reinventar" a atuação na rotina diária e
criar metodologias adaptadas, citando o “Formulário do Autor” como um exemplo
valioso. Esse formulário permite conhecer o perfil dos participantes dos grupos
reflexivos, facilitando a personalização dos temas abordados.
Em Juína, os grupos contam com
uma média de 10 a 20 homens por ciclo de oito encontros semanais. A assistente
social destaca a dedicação da equipe de duas profissionais exclusivas para a
Vara de Violência Doméstica e Familiar, que busca reformular os temas para
torná-los mais claros e relevantes. "Vou levar o que aprendi aqui, não só
para a comarca, mas também para a Rede de Enfrentamento. Vou propor adotarmos o
formulário do autor, para melhorarmos, inclusive, os temas abordados."
Compromisso com a Lei Maria da
Penha
A capacitação é uma resposta
direta à Recomendação nº 124/2022 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que
orienta os Tribunais de Justiça a instituírem programas de reflexão e
sensibilização para autores de violência doméstica, e à Lei Maria da Penha (Lei
nº 11.340/2006), que prevê a formação de equipes de atendimento
multidisciplinar especializadas. Essas equipes, conforme o Artigo 30 da Lei,
são responsáveis por fornecer subsídios ao juiz, Ministério Público e
Defensoria Pública, além de desenvolver trabalhos de orientação, prevenção e
encaminhamento para a vítima, o agressor e seus familiares.
A capacitação também se alinha ao
Plano de Gestão 2025-2026 da Cemulher-MT, de “fortalecer os serviços
especializados para atendimento à mulher vítima de violência”; “potencializar e
divulgar o Núcleo de Atendimento Thays Machado às magistradas e servidoras e as
campanhas permanentes sobre violência doméstica”; e “implantar as equipes
multidisciplinares exclusivas para as comarcas”.
Grupos Reflexivos para Homens
Em Mato Grosso, a implementação
desses grupos precede as recomendações do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
Atualmente, o TJMT, por meio da Cemulher-MT, desenvolve programas em 20
comarcas do estado, promovendo a reflexão e a responsabilização de autores de
agressão autuados pela Lei Maria da Penha.
O Poder Judiciário mato-grossense conta também com o funcionamento de 76 Redes de Proteção à Mulher Vítima de Violência Doméstica em todo o estado.
Confira também:
Capacitação prepara profissionais para transformar autores de violência em agentes de mudança
Capacitação reforça papel das equipes multidisciplinares na construção de uma sociedade igualitária
Marcia Marafon / Foto: Alair Ribeiro
Coordenadoria de Comunicação do TJMT
imprensa@tjmt.jus.br
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