Capacitação prepara profissionais para transformar autores de violência em agentes de mudança
O segundo dia de capacitação voltada à formação de
facilitadores para Programas de Reflexão e Sensibilização para Autores de
Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, realizado na manhã desta
terça-feira (15 de julho), reforçou o compromisso do Poder Judiciário de Mato
Grosso com a reeducação e responsabilização dos homens autores de violência. A
formação acontece na Escola dos Servidores “Desembargador Atahide Monteiro da
Silva”, em Cuiabá, e reúne equipes multidisciplinares das varas especializadas,
psicólogos e assistentes sociais que atuam com grupos reflexivos nas comarcas
do estado.
A programação foi conduzida pelo juiz Marcelo Sousa
Melo Bento de Resende, titular da 2ª Vara Criminal de Barra do Garças, que
abordou a importância do trabalho das equipes técnicas. Segundo o magistrado, o
papel das equipes multidisciplinares vai além do suporte técnico. “As equipes
multidisciplinares são fundamentais no atendimento, porque elas fazem o contato
do Poder Judiciário com outros integrantes da rede. E hoje trabalhamos em
especial as funções específicas do que a equipe pode fazer”, afirmou.
Marcelo Resende explicou que os profissionais da
equipe têm autonomia para encaminhar diretamente as vítimas a qualquer serviço
da rede de proteção, o que garante maior agilidade na resposta institucional.
“Isso dá uma liberdade de atuação muito grande, que faz com que a proteção à
vítima seja mais rápida e eficiente. Precisamos de um serviço de atendimento
ágil para proteger todas as vítimas”, destacou. Pela manhã, o foco foi nos
relatórios psicossociais, nos encaminhamentos, no preenchimento do formulário
de risco e no depoimento especial.
A advogada Dinara de Arruda Oliveira, presidente da
Academia Mato-grossense de Direito (ADM), destacou que o segundo dia da
capacitação aprofunda os conteúdos práticos discutidos anteriormente. “Ontem
nós trabalhamos os aspectos mais teóricos, começamos com questões afetas ao
machismo, ao patriarcado, estereótipo de gênero que a gente vê ainda muito
arraigado na sociedade. Falamos também sobre a legalização internacional e
nacional, especialmente a Lei Maria da Penha”, contextualizou.
Dinara pontuou que o papel das equipes técnicas é
acolher a vítima e reeducar o agressor. “Hoje vamos focar mais nas equipes
multidisciplinares efetivamente, como qual é o papel do assistente social e do
psicólogo no atendimento à vítima da violência doméstica e também no
atendimento ao homem agressor. A ideia dos grupos reflexivos é que eles não
voltem a agredir”, disse.
Para Josefina Pereira Barbosa Correa, assistente
social que atua no Fórum de Várzea Grande, a capacitação foi essencial para
fortalecer a atuação junto ao Centro de Atendimento às
Vítimas (CEAV).
“Estamos começando um projeto lá com vítimas que retomam o relacionamento e
acabam sofrendo violência novamente. Então, essa troca de experiências com o
juiz de Barra do Garças foi de grande valia. A participação presencial permite
esse intercâmbio, e isso faz toda a diferença”, relatou. Josefina ainda
explicou que o acolhimento no CEAV é o primeiro contato da vítima
com a rede de proteção, seja por audiência ou demanda voluntária, e que o
encaminhamento correto a CRAS ou CREAS é crucial.
A psicóloga Joane Avelino de Souza, do Fórum de
Rondonópolis, também ressaltou a importância do curso para qualificar o
atendimento na Vara da Violência Doméstica. “Lidamos diariamente com o
sofrimento de muitas famílias, de mulheres e também de homens. O curso tem nos
direcionado não apenas a escutar, mas acolher e encaminhar, ofertando
oportunidades, inclusive de trabalho para as vítimas. A violência gera muita
vulnerabilidade e muitas não enxergam saída”, contou.
Ela destacou o papel da equipe psicossocial em
oferecer não só relatórios, mas apoio concreto. “Elas chegam muito vulneráveis,
com medo, muitas vezes dependentes financeiramente e emocionalmente do autor da
violência. O curso amplia nosso olhar para o que podemos fazer em nossa
atuação”, completou.
Já para Sandra Maria da Costa Felix, servidora do
TJMT que atua no Núcleo de Justiça Restaurativa (NugJur), a capacitação tem
proporcionado novas formas de abordar o ser humano de forma integral. “Envolver
as redes de apoio é muito interessante, porque elas trabalham acolhendo as
vítimas e também os ofensores. A gente tem que acolher os dois”, defendeu.
Segundo ela, quando se trata do ser humano, não há
classe social ou distinção. O importante é responsabilizar e transformar. “Vim
aqui para aprender mais com os colegas e ver como podemos aplicar isso dentro
dos Círculos de Construção de Paz. Essa nova roupagem nos ajuda a olhar para a
sociedade de uma forma mais humana”, afirmou.
A formação, com 20 horas-aula, também busca alinhar
o trabalho técnico com as exigências do sistema judicial. “É essencial que a
linguagem entre o Direito, a Psicologia e o Serviço Social esteja afinada. Essa
harmonia garante um atendimento mais qualificado às vítimas e uma intervenção
mais eficaz junto aos autores de violência”, completou o juiz Marcelo Resende.
A capacitação teve início na segunda-feira (14 de
julho) com a presença da desembargadora Maria Erotides Kneip, coordenadora da
Cemulher-MT, da juíza Ana Graziela Vaz de Campos Alves Corrêa e da equipe da
Coordenadoria da Mulher. Na abertura, a desembargadora destacou o caráter
inédito da iniciativa voltada especificamente às equipes técnicas das varas de
violência doméstica. “Precisamos cuidar de quem cuida dos agressores, porque
essa é uma tarefa complexa. A política de enfrentamento à violência contra a
mulher passa também pela transformação do autor da violência”, afirmou.
A capacitação segue até quarta-feira (16 de julho).
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Capacitação reforça papel das equipes multidisciplinares na construção de uma sociedade igualitária
Psicólogos e assistentes sociais que atuam em grupos reflexivos participam de capacitação
Flávia Borges / Foto: Josi Dias
Coordenadoria de Comunicação do TJMT
imprensa@tjmt.jus.br
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