Tribunal leva palestras sobre violência contra a mulher a estudantes da Escola Cesário Neto
O
projeto Cemulher e a Lei Maria da Penha nas Escolas deu seu pontapé inicial do
ano de 2026 levando palestras sobre violência contra a mulher a aproximadamente
70 alunos do 9º ano do Ensino Fundamental e do 1º e 2º ano do Ensino Médio da Escola Estadual de Desenvolvimento
Integral da Educação Básica (EEDIEB) Professor Antônio Cesário de Figueiredo
Neto, em Cuiabá, nesta terça-feira (10). A iniciativa ocorreu a convite da
equipe psicossocial da unidade escolar à equipe da Coordenadoria Estadual da
Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar no Âmbito do Poder
Judiciário (Cemulher-MT).
Os assessores técnicos multidisciplinares da
Cemulher, Adriany
Carvalho e Cristian Pereira, apresentaram dados sobre a violência doméstica em
Mato Grosso e no Brasil. Um dos pontos destacados foram os números de vítimas
indiretas do feminicídio no estado: as crianças e adolescentes. Conforme
relatório estatístico da Polícia Civil de Mato Grosso, das 52 mulheres vítimas
de feminicídio no estado em 2025, 42 eram mães. Elas deixaram 89 órfãos, sendo
45 filhos com idade até 15 anos. Além disso, sete mulheres foram mortas na
presença dos filhos.
A
história da farmacêutica bioquímica e ativista Maria da Penha também foi
lembrada - bem como sua luta por justiça, que culminou com a criação da lei que
leva seu nome (Lei 11.340/2006) -, como forma de conscientizar meninas e
meninos, homens e mulheres presentes nas palestras sobre a importância de saber
reconhecer os tipos de violência contra a mulher (física, sexual, moral,
patrimonial e psicológica) e combater essa realidade. Como, por exemplo, por
meio do apoio às vítimas e das denúncias, que podem ser feitas por canais como o
190 ou 180. Os estudantes também foram orientados a buscar ajuda dos pais e da
equipe psicossocial da escola, em caso de necessidade.
Cristian
Pereira, assessor técnico multidisciplinar da Cemulher, destaca que a
importância de levar o debate sobre esse tema para as escolas está na
prevenção. “A misoginia, que é o ódio contra as mulheres, é adquirida em algum
momento da vida, mas nós sabemos que ninguém nasce misógino. Por isso é tão importante falar para as crianças sobre esse
assunto agora para que, no futuro, tenhamos uma sociedade diferente, onde não
tenhamos números tão alarmantes de homens tirando a vida de mulheres”.
O palestrante destaca que, neste ano, o projeto Cemulher e a Lei Maria da Penha nas
Escolas teve início no mês da mulher e ocorrerá
ao longo de todo o ano, não somente em Cuiabá, mas também no interior. “As
comarcas são incentivadas a fazer esse trabalho nas escolas. É o que a
desembargadora Maria Erotides Kneip, coordenadora da Cemulher, tem nos falado:
para fazer o trabalho preventivo. E nós vamos colher muito frutos, no futuro,
desse trabalho”, afirma.
Com
diversos adolescentes que já namoram presentes, os palestrantes alertaram ainda
sobre os sinais de relacionamento abusivo, que começa com comportamentos como
ciúme excessivo e controle, passa por invasão de privacidade, afastamento de
familiares e amigos, chantagem, destruição da autoestima, invalidação de
sentimentos, controle financeiro, e chega até mesmo a ameaças e violência
física.
A
estudante do 9º ano Ana Luiza Moraes, 14, afirma que várias garotas da sua
idade sofrem violências, como agressão física e verbal, mas acabam suportando
por medo ou vergonha do que os outros vão pensar. “E eu acho muito importante sempre explicar, para mostrar para os meninos
que precisam respeitar as meninas. E que as mulheres podem confiar nelas, se
abrirem mais para falar, que não podem ter vergonha, têm que falar mesmo o que
sentem, o que está acontecendo dentro de casa porque, um dia, podem acontecer
casos piores, como a morte”, comenta.
Para o aluno
do 2º ano Lucas Daniel Queiroz, 17, em uma sociedade que trata a mulher com “represálias”,
é sempre bom disseminar os direitos dela. “É
sempre bom ressaltar que as mulheres não são simplesmente seres que são
apagados da existência da sociedade. Então, elas devem ser lembradas, elas
devem ter também seus direitos lembrados, saber que, em qualquer situação em
que elas estiverem, podem também exercer os seus direitos. Acho interessante esse
tipo de palestra, pois a gente consegue ‘quebrar’ um pensamento que remonta aos
primórdios da sociedade, de que o homem é superior à mulher”, avalia.
Psicólogo da Escola
Cesário Neto, Lucas Patrick Machado explica que a palestra da Cemulher foi
solicitada com o objetivo de demonstrar aos estudantes e servidores a
preocupação com a garantia de direitos da mulher, especialmente no momento de
formação de caráter dos adolescentes.
“A gente fica muito
feliz e agradece muito por essa parceria com o Tribunal, porque é uma garantia
de que exista uma continuidade na informação sobre os direitos das mulheres, e
também para que os homens que estão aqui na escola entendam a gravidade das
atitudes que, muitas vezes, tomam sem perceber que estão tomando atitudes que
podem ser consideradas violências. E a partir disso, a gente torce para que
haja uma mudança, para que as engrenagens
comecem a girar e a gente consiga fazer uma sociedade melhor, muito mais
pacífica, muito mais acolhedora com a mulher”, disse.
O diretor da Escola Césario Neto, Wagner Mônantha Souza Morais enalteceu a parceria com o Poder Judiciário para reforçar a programação do mês da mulher na unidade. “A Escola Cesário Neto está sempre buscando parcerias para consolidar trabalhos que já executamos aqui na escola. Estamos no mês da mulher, em que a gente para pra refletir sobre a questão da valorização, do respeito, da busca pelo reconhecimento das mulheres. Então, ter grandes parceiros, como o TJMT, para nós valida e potencializa essas ações”.
Leia também:
Exposição no Fórum de Cuiabá revela, pelos traços de
crianças, a dor da violência doméstica
Celly Silva / Foto: Josi Dias
Coordenadoria de Comunicação do TJMT
imprensa@tjmt.jus.br
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