Política sobre drogas e álcool em debate no Fórum
“As drogas podem sim produzir transtornos mentais e de comportamento nas pessoas que as utilizam”. A máxima proferida pela médica psiquiátrica e doutora em Ciências pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Ana Cecília Petta Roselli Marques, produziu efeito no público que assistia à palestra “Da prevenção ao tratamento baseado em evidências científicas” do Fórum Internacional Ressocialização e Direitos Humanos, na tarde desta quinta-feira (27 de agosto), em Cuiabá.A médica e pesquisadora trouxe informações divulgadas por um levantamento feito pela Unifesp sobre o uso de álcool e drogas no Brasil. Entre os apontamentos está o fato de a primeira experiência com o álcool estar na faixa dos 12 a 14 anos, que as meninas adolescentes bebem tanto quanto os meninos e que o consumo de drogas começa antes dos 18 anos.
“Embora as leis de proteção à criança e adolescente sejam muito boas, elas não têm conseguido evitar a epidemia que está acontecendo. Precisamos desenvolver uma política de prevenção voltada para adolescentes e para mulheres, especialmente nas escolas. Desta forma, conseguiríamos reduzir em 50% a entrada de novos consumidores”, salienta a médica.
Ela acrescenta que a melhor forma de prevenção é a universalização do conhecimento. “Estamos vivendo uma onda das drogas sintéticas e pouco se sabe sobre os efeitos que elas podem causar. Nos adolescentes a preocupação é maior ainda, pois há estudos que demonstram que o cérebro só atinge a sua maturidade aos 20 anos, o que quer dizer que os efeitos no cérebro deles podem ser ainda mais trágicos. E nesse sentido, a sociedade está indo na contramão da ciência, exigindo demais dos jovens”, observa.Outro dado trazido por Ana Cecília versa sobre a dependência de idosos. “Quanto mais cedo se experimenta e mantém o uso de álcool e drogas, maior a chance de desenvolver uma dependência no futuro. Os dependentes idosos geralmente começaram a usar bem cedo e não existe uma política voltada para eles”, pondera a psiquiatra.
Para ela, o cenário ideal seria que os dependentes fossem diagnosticados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), que o tratamento se estendesse à família (que muitas vezes adoece junto) e que eles fossem acompanhados, principalmente, no pós-alta, que é quando acontecem as recaídas.
Segundo Ana Cecília, o uso excessivo de álcool e drogas remonta à Idade Média, no entanto, até hoje as pessoas não conhecem verdadeiramente os malefícios que elas podem causar. “É fundamental que a sociedade debata esse tema, que ainda é pouco conhecido. O fato é que não existe uso seguro de nenhuma droga. Qualquer dose pode dar uma resposta adversa, pois cada um tem um organismo diferente. Então, a recomendação para o adolescente é igual a das grávidas, zero drogas, nem tabaco, nem álcool, pois os resultados são imprevisíveis”.
No adulto, ela fala que a configuração muda um pouco. “Mais de uma dose já pode causar algum impacto, mas a longo prazo vai deteriorando todos os órgãos do corpo. Para se ter uma ideia, já foi demonstrado que mulheres que bebem com regularidade (uma vez por semana) têm mais chances de ter câncer de mama do que aquelas que não bebem”, assinala a médica.
Por fim, a palestrante ainda chamou a atenção para o tratamento que é dado aos menores infratores. “A maioria dos menores infratores faz uso de drogas e álcool e eles também precisam ser medicados e tratados. O SUS também deve prover esse direito a eles”.
O juiz titular do Juizado Especial Criminal Unificado de Cuiabá (Jecrim), Mario Roberto Kono de Oliveira, destaca que 70% dos crimes estão relacionados ao uso de substâncias entorpecentes. “É uma doença que se alastra, que cresce de forma progressiva e que traz consequências funestas não só pra quem consome, mas para a toda a sociedade. E esse usuário acaba praticando outros delitos para manter o seu vício. E o Judiciário pode contribuir tendo uma visão mais ampla do que o simplesmente vigiar e punir”, argumenta o magistrado.
Aos 18 anos, a estudante de direito Elizia Garcia garante que a influência familiar é a que mais pesa nas escolhas dos jovens. “Tem muitas meninas que conheço que por não ter consciência do que fazem, acabam sendo influenciadas pelos outros. Começa pelo álcool e termina nas drogas. No meu caso, meus pais sempre conversaram bastante comigo e isso me ajudou a focar nos estudos e a não me deixar influenciar”, revela.
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Fotos: André Romeu
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